domingo, 6 de setembro de 2020

A sintonia

Entramos em sintonia com o movimento direcionado para a frente, contínuo. Portanto, também nos movimentamos para frente com ele, afastando-nos de algo que deixamos para trás, de algo que já passou. Nessa sintonia atingimos a calma, porém uma calma que está em movimento.

Ficamos calmos, porque dentro desse movimento somos bem sucedidos em algo. Somos bem sucedidos por irmos com esse movimento, mais precisamente, por sermos levados por ele.

Nem sempre experimentamos essa sintonia, pois frequentemente aquilo para onde as sintonias nos leva causar-nos medo. Para permanecermos em sintonia, necessitamos de toda nossa coragem. A sintonia nos solicita uma total entrega e todo o amor, o amor por tudo da maneira como é.

  • Na sintonia nos tornamos altruístas e totalmente puros. 
  • Na sintonia estamos unidos a tudo da maneira como é. 
  • Na sintonia tudo vem ao nosso encontro da maneira como é.

Abre-se para nós e modifica-se para nós, por estarmos em sintonia com isso. Somente no momento em que entramos em sintonia com o movimento do espírito no outro também entramos em sintonia com o movimento do espírito em nós.
O Amor do Espírito - Bert Hellinger-Ed Atman

**********

Para mim quando se fala em sintonia, em movimento do espírito, isso equivale a estar aberto e atento para o meu EU interior, para aquele feeling de temos de vez em quando - como resposta à algo. 

Se estou presente ouço as respostas. Se estou presente não me identifico. Se estou presente compreendo as leis de causa e efeito e aceito tudo como é, como foi.

Quando escrevo "como foi", isso se refere a minha ancestralidade também...e não somente minha vida atual.

Como assim?

Pensemos:
Tudo o que somos hoje é graças aos nossos pais e antepassados. Eu tenho certeza absoluta desta verdade. Recebemos deles (DNA, históricos familiares, evolução das aprendizagens, facilidades, dificuldades, etc...)

Como explicar a facilidade de um bebê ao manipular um celular nos dias de hoje? Muitos que vieram antes já passaram por situações e abriram os caminhos para os seus descendentes. Por isso a gratidão deve estar sempre presente em nosso coração - isto é o movimento do espírito. Algo começou há muito tempo e passou por muitos... e agora, chega até nós.

Sem julgamento, crítica ou idealizações.

Assim como as dificuldades que existem hoje em minha vida ou as facilidades - são elas que levarei adiante , aos que virão depois...

Partindo deste princípio, como posso permanecer sem gratidão e sem olhar para o que é necessário nesta vida? Aqui muitas coisas a pensar, sentir, e soltar.

Boa semana.
Tais

domingo, 30 de agosto de 2020

O surpreendente efeito de aceitar

Se você não solta o passado, como vai agarrar o futuro?
O alemão Bert Hellinger, terapeuta e criador da cada vez mais popular “Constelações Familiares“, ou “Constelações Sistêmicas“, é autor de diversos livros sobre o que chama de princípios e leis dos relacionamentos humanos, como “A Simetria Oculta do Amor” e “O Essencial é Simples“, e deles vem uma série de aforismos profundos sobre auto-conhecimento e a cura de relações. 

Um deles, por exemplo, diz que “o critério para o que é bom é baseado no que traz alívio a alguém, o que traz alegria ou que reduz um estresse” .
Outro diz que “A experiência pode ser significativa apenas quando a deixamos pra trás. Significando: seguindo em frente, transformado”.

Mas gostaria de trazer um aqui que fala sobre a comunicação que usa o lamento, a crítica ou a queixa, algo bastante fácil de fazer, e que alguns podem entender como bastante natural, necessário até, e talvez obrigatório. 
O aforismo diz o seguinte: 
“Tudo aquilo de que me lamento ou queixo, quero excluir“, segundo Hellinger. 
A frase é o início de um texto que segue abaixo sobre um tipo de postura ou atitude psíquica reativa diante de algo ou alguém. Diante do mundo, basicamente. 

Hellinger é um estudioso e um experimentador nato, um psicoterapeuta que une um lado poderoso da observação e da capacidade de compreensão com a experiência aberta e comprometida com a verdade, então não é uma atitude muito prudente simplesmente negar essas afirmações sem uma reflexão séria. E partindo do princípio que todos nós já nos lamentamos, criticamos ou nos queixamos de alguma coisa ou de alguém, ou que podemos estar fazendo isso com certo engajamento, pode ser interessante entender o que esse curador veterano tem a dizer sobre a dimensão mais profunda dessa atitude.

Mais interessante que isso pode ser considerar a sugestão de Hellinger: integrar o que se rejeita. Fazer isso é acolher a própria sombra, reconhecer o que tivemos alienando em nós mesmos há muito tempo, e assim uma libertação — de nós mesmos e de todos os outros. Não é fácil, pois a tarefa de acusar e criticar é, em si mesma, um mecanismo de não ver e de continuar não vendo (vemos nos outros). Mas a frase inicial tem um poder especial, que talvez suscite uma curiosidade em nossa consciência, de talvez aceitá-la, de talvez pesquisá-la, de talvez experimentá-la.

“O melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossa sombra sobre os outros”.Carl G. Jung

Eis o texto:

“Tudo aquilo de que me lamento ou queixo, quero excluir. Tudo aquilo a que aponto um dedo acusador, quero excluir. A toda a pessoa que desperte a minha dor, estou a excluí-la. Cada situação em que me sinta culpado, estou a excluí-la. E desta forma vou ficando cada vez mais empobrecido.

O caminho inverso seria: a tudo de que me queixo, fito e digo: sim, assim aconteceu e integro-o em mim, com todo o desafio que para mim isso representa. 
E afirmo: irei fazer algo com o que me aconteceu. Seja o que for que me tenha acontecido, tomo-o como a uma fonte de força. 

É surpreendente o efeito que se pode observar neste âmbito. Quando integro aquilo que antes tinha rejeitado, ou quando integro aquilo que é doloroso para mim, ou que produz sentimentos de culpa, ou o que quer que me leve a sentir que estou a ser tratado de forma injusta, o que quer que seja… quando tento incorporar tudo isso, nem tudo cabe em mim. Algo fica do lado de fora. Ao consentir plenamente, somente a força é internalizada. Tudo o resto fica de fora sem me contaminar. Ao invés, desinfecta, purifica-me. A escória fica de fora, as brasas penetram no coração.”

 Bert Hellinger

************ 

domingo, 23 de agosto de 2020

O inútil


A vida é dialética – é o movimento do espírito, um método muito eficaz para aproximar as ideias individuais às ideias universais. É por isso que não é lógica. Lógica significa que o oposto é de fato oposto, mas na vida, o oposto não é realmente o oposto, é o complementar. Sem ele nada é possível.

Por exemplo, a vida existe por causa da morte. Se não houver morte não pode haver vida. A morte não é o fim e a morte não é o inimigo – em vez disso, pelo contrário, por causa da morte a vida torna-se possível.

Existe a luz, existem as trevas. Para a lógica eles são opostos, e a lógica vai dizer: Se há luz, não pode haver escuridão; se estiver escuro, então não pode haver luz. Mas a vida diz exatamente o contrário. A vida diz: Se há luz é por causa das trevas. Podemos não ser capazes de ver o outro, mas ele está escondido ao virar a esquina.

Há silêncio por causa do som. Se não houver som, você pode ficar em silêncio? Como você pode ficar em silêncio? O oposto é necessário como um pano de fundo. Aqueles que seguem a lógica sempre erram, porque a sua vida torna-se desequilibrada. Eles pensam na luz, então começam a negar a escuridão; eles pensam na vida, então começam a brigar com a morte.

Só as mentes pequenas são coerentes, quanto mais estreita a mente, mais coerente ela é. Quando a mente é muito vasta, ela envolve tudo – a luz está lá, a escuridão está lá. Deus existe e o diabo também, em toda a sua glória.

Se você entender esse processo misterioso da vida, que se move através dos opostos, que é dialético, em que o oposto ajuda, dá equilíbrio, dá o tom, serve de pano de fundo, então você pode entender Chuang Tzu – porque toda a visão Taoista é baseada na complementariedade dos opostos.

O oposto se torna o imã, ele puxa você; o oposto o traz para fora de si mesmo, o oposto quebra a sua prisão, o oposto faz com que você seja vasto. E sempre que o oposto é negado, é um problema. E é isso que temos feito, por isso há tantos problemas no mundo.

O homem tentou criar uma sociedade que é basicamente masculina, e por isso há tantos problemas – a mulher tem sido negada, ela foi jogada fora.

Por isso, o mundo ficou feio, porque como você pode negar o oposto? Todo o equilíbrio se perdeu. O mundo enlouqueceu. O homem domina, é por isso que há tanta infelicidade. Quando uns dos polos opostos domina, haverá infelicidade porque o outro se sente magoado e haverá vingança.

Por que é que a mulher está sempre em conflito? Não é a pessoa, não é uma coisa pessoal. É a vingança do feminino, do oposto negado. E este homem na casa, o marido, é o representante de todo o mundo masculino, o mundo machista. Ela está lutando.
O oposto deve ser incorporado. Negando isso, convidamos os problemas e, em cada caminho, em todos os níveis, em todas as dimensões, é a mesma coisa. Se você negar o inútil, então não haverá nada de útil no mundo.

Por exemplo, se uma criança está brincando você diz: “Pare! O que você está fazendo? Isso é inútil. Faça algo útil. Aprenda, leia, pelo menos faça a sua lição de casa, algo útil. Não fique por aí, como um vagabundo”. Se você continuar insistindo com essa criança, aos poucos você vai matar o inútil.
Então a criança vai se tornar apenas útil e, quando uma pessoa é apenas útil, ela está morta. Você pode usá-la, ela é uma coisa mecânica, um meio e não um fim em si mesmo.

Perceba... Você é realmente você mesmo quando está fazendo algo inútil – pintura, não para vender, apenas por prazer; jardinagem, apenas por prazer; deitado na praia, sem fazer nada, apenas para desfrutar, diversão inútil; sentado em silêncio ao lado de um amigo.
E muito poderia ser feito nesses momentos, porque esses momentos não vão voltar. E as pessoas loucas dizem que tempo é dinheiro – porque só conhecem uma maneira de usar o tempo – como convertê-lo em mais e mais dinheiro. No final, você morre com um belo saldo bancário, mas por dentro totalmente pobre, porque a riqueza interior só surge quando você sabe apreciar o inútil.

E o que é meditação? As pessoas vêm até mim e dizem: “Qual é a utilidade dela? O que vamos ganhar meditando? Qual a vantagem disso?"

Meditação... E você pergunta sobre a vantagem? Você não pode entendê-la porque a meditação é simplesmente inútil. No momento que digo inútil, você se sente desconfortável, porque toda a sua mente se tornou tão utilitária, tão orientada para a mercadoria, que você precisa de um resultado. Você não pode admitir que algo possa ser um prazer por si só.

Inútil significa que você aprecia, mas não ganha nada com isso; você se deixa absorver profundamente, isso lhe dá felicidade.

No mundo existem dois tipos de pessoas: as utilitaristas – elas se tornam cientistas, engenheiros, médicos. Então, há o outro caminho, complementar – os poetas, os vagabundos, os renunciados – inúteis, não fazem nada de útil.

Mas eles dão o equilíbrio, dão a graça ao mundo. Pense num mundo cheio de cientistas e sem nenhum poeta – seria absolutamente feio. Pense num mundo com todos nas lojas, nos escritórios, e nem um único vagabundo. Seria o inferno. O vagabundo dá beleza.
Essas pessoas dão beleza ao mundo, são um perfume. Um Buda é um vagabundo, um Mahavira é um vagabundo.


Sempre que o mundo fica utilitarista demais, você cria muitas coisas, você possui muitas coisas, você se torna obcecado pelas coisas -, mas o mundo interior está perdido, porque o interior pode florescer somente quando não há nenhuma tensão externa, quando você não está indo a lugar algum, apenas descansando. Então o interior desabrocha.

Então, nesse momento, olhe pra dentro e ouça...
Ouvir é diferente de ficar apenas em silêncio; ouvir é uma passividade alerta, que está a espera de algo, sem dizer nada, mas esperando com todo o ser – tem uma intensidade...
Mas ouvir é absolutamente inútil; e ouvir o desconhecido? Você não sabe onde ele está. O silêncio é inútil, falar parece útil - algo pode ser feito por meio de conversas, se você estiver fazendo muitas coisas no mundo.

E o mestre Chuang Tzu diz: A religião começa quando você compreende a futilidade de fazer, então você passa para o extremo oposto do não fazer, da inatividade, do tornar-se passivo, de tornar-se inútil.

*********

Texto sensacional. 
As vezes nós mesmos nos cobramos algo , uma decisão por exemplo, quando ainda não temos a resposta interna. E fica aquela pressão ( de fora e de dentro...). Na verdade, se temos uma " ferida", (não importa quando foi instalada , nem por quem) as decisões não aparecem... e somos "empurrados" pela pressa , pelo desespero, a decidir. Treinar ouvir-se é necessário.

O que você está fazendo para isso?
Se nada é buscado, os resultados continuarão sendo os mesmos: cobranças, insucessos, desespero, derrotas...
Então...mãos à obra!
Bom dia.
Tais