domingo, 10 de dezembro de 2017

Perder pais nos torna mais velhos.



"Minha mãe morreu. Repito a frase de Mersault sem a indiferença da personagem de Camus. Pelo contrário. O redemoinho de emoções foi inédito na minha vida. Uma dor psíquica e física, um encolhimento da percepção do mundo e fechamento em torno de uma cela de chumbo.

Eu havia sofrido muito, há sete anos, com a partida do meu pai. Meu coração sangrou por anos. O tempo fez a dor sair da posição de protagonista e aninhar-se nos bastidores. Ainda choro, especialmente quando leio uma carta dele ou vejo uma foto. Hoje meu pai dialoga comigo no silêncio e, de quando em vez, até sorrio pelas memórias.

A data do falecimento dele era o horizonte maior da minha possibilidade trágica. O gráfico acaba de se ampliar. Meu coração sangrou naquele dezembro de 2010. Agora perdi minha mãe. Parece que perdi o coração, que ele foi enterrado, que o próprio ato de sentir estava ligado a ela.

Revivo sensações antigas. Perder pais nos torna mais velhos. É, de fato, o início da vida adulta. Acabo de ficar órfão total. Não ser mais filho muda nossa posição na ordem do mundo. A fila andou. A quem recorrer com a certeza do amor incondicional?

Explico melhor. Nunca tive qualquer medo de morrer. Testei o princípio muitas vezes em acidentes e situações de risco. Parece-me natural encerrar a vida como ser biológico que sou. Um dia, meu diligente bisavô faleceu. Era um homem trabalhador e muito respeitado. Estudei-o na árvore genealógica da família, mas seu passamento há 85 anos não deixou rastros fora de arquivos e lápides.

Sei que a morte da minha mãe, a minha ou de qualquer pessoa passará por completo. Sempre entendi e aceitei o rito de Quarta-feira de Cinzas: sou pó e ao pó retornarei. Diria até que me conforta não ser imortal e, um dia, cansado, encerrar o combate. Já escrevi que a beleza da flor natural é seu caráter efêmero. A fealdade da rosa de plástico está na sua durabilidade e em sua tentativa de emular a vida pulsante. A flor artificial é um pastiche, pobre coitada. A vida eterna seria insuportável. Nunca tive medo da morte. Lembrando o bom Epicuro, preciso honestamente viver e honestamente morrer. De resto, nunca encontrarei a morte: enquanto eu for, ela não será, quando ela surgir eu deixarei de ser, dizia o filósofo em carta a Meneceu.

Sobre o que choro? A viagem no trem da vida está ficando com menos passageiros conhecidos. Os que embarcaram na mesma estação estão partindo. Os Karnais que vieram ao mundo na década de 1990 ou no século em curso têm sobrenome, genética, olhos, idiossincrasias e outras coisas absolutamente da família. Porém, pertencem a outro mundo, com outra história, e apresentam um futuro distinto. São hoje o que fui para meus tios e avós: sangue e sobrenome, mas extrato de outra cepa e broto de outra rama. Os jovens trazem vida, porém outra vida, desconhecida e nova, desligada dos liames geracionais da minha.

Reclamo dos lugares vazios no comboio biográfico. Sinto a força do nada que se amplia. Nunca mais abraçar minha mãe. Nunca mais! Que ideia avassaladora! O corvo de Poe abre a asa fúnebre da memória. O lugar dela à cabeceira da sala de jantar para sempre reclamará a ocupante usual. Parece que continuo a apresentar uma peça em um imenso palco e a cada ano sai alguém do elenco.

Tudo remete à memória dela. Estou escrevendo em uma cadeira de avião. Aos 4 anos, voei pela primeira vez, no colo de Dona Jacyr. Lembro-me perfeitamente da cena e tudo parecia seguro porque os olhos azuis de minha mãe sorriam. Antes, nada poderia me atingir, agora tudo pode. Fragilizei-me. Diminuí.

Quando as doenças tomaram minha mãe, nós a cercamos de cuidados intensos como ela sempre prodigalizara a todos. Os últimos anos foram felizes, entremeados pelo lobo sorrateiro da fragilidade física. Todos os sonhos foram cumpridos. Todos os destinos foram visitados. Como muitas mães, ela viu os filhos crescerem e acompanhou, emocionada, a chegada dos netos. Ela saiu deste mundo tendo experimentado a felicidade.

A lição é sempre a mesma: faça com seus pais em vida o que você deseja. Não aumente a dor da morte com a pungência do remorso. Só temos tempo hoje. Depois passa. Consegui dizer infinitas vezes que a amava. Alegro-me de ter demonstrado com meu coração, meu cérebro, meu tempo e minha carteira que ela era fundamental. Sem ao menos esse consolo, seria insuportável o momento. Na UTI, faltando poucas horas para o fim, pude enunciar as únicas coisas importantes: dizer obrigado e que eu também a amava.

Esta é uma coluna melancólica. Não poderia escrever outra agora. Sempre soube que o luto seria intenso porque celebrava o vivido entre nós. A dor da perda é a alegria da vida com sinal trocado. Muito amor gera também ausência que punge. Pior seria não ter amor a perder e nenhuma lembrança a celebrar. Nós superaremos a trilha escura porque Dona Jacyr Karnal criou filhos fortes. Nós continuaremos a andar no mundo. O sol surgirá sempre, indiferente a nossas tragédias pessoais. A noite cobrirá o que nos é caro. Entre um crepúsculo e outro, vivi o privilégio de ter minha mãe.

O desejo tradicional é equivocado: os mortos sempre repousam em paz. Nada mais os aflige. A paz é uma luta para os vivos. Espero reencontrar a minha. Bom domingo para todos que têm mães ao seu lado ou na memória.

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo -03 Dezembro 2017
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Uma bela reflexão...
Bom dia!
Tais

domingo, 3 de dezembro de 2017

Como Ajudar? O posicionamento e o papel do terapeuta de Constelação Familiar.


Constelação Familiar é uma terapia breve criada pelo alemão Bert Hellinger nos anos 70. Esta técnica revolucionou o trabalho da psicoterapia. Ela se faz em apenas uma sessão, onde o cliente escolhe um tema a ser “trabalhado” e o terapeuta (Ajudante) através dos “representantes” (pessoas aleatórias que estão no grupo) monta o sistema familiar ancestral do cliente. Neste campo (onde é estabelecida a Constelação) observamos onde estão os “bloqueios” que estão impedindo o cliente a fluir. Os bloqueios sempre aparecem onde percebemos excluídos naquele sistema familiar. Entendemos como excluídos, pessoas que por um motivo ou por outro estão à margem deste sistema.

Neste artigo vamos nos deter a ver o papel do terapeuta numa Constelação Familiar.

Estamos numa profissão em que lidamos com o ser humano num processo de Ajuda, de colaboração ao outro; e muitas vezes nos pegamos num papel de achar que temos a resolução daquela problemática em nossas mãos, o que é um erro. Vejamos um trecho escrito pelo Bert Hellinger que nos mostra como o terapeuta de Constelação Familiar deveria se basear, chama-se, Sabedoria.

…O sábio concorda com o mundo tal como é,

Sem temor e sem intenção.
Está reconciliado com a efemeridade
E não almeja além daquilo que se dissipa com a morte
Conserva a orientação, porque está em harmonia,
E somente interfere o quanto a corrente da vida o exige.
Pode diferenciar entre:
É possível ou não, porque não tem intenções.
A sabedoria é o fruto de uma longa disciplina e exercício,
Mas aquele que a possui, a possui sem esforço.
Ela está sempre no caminho e chega à meta,
Não porque procura,
Mas porque cresce…”

Ajudar é uma arte que pode ser aprendida. Também faz parte dela uma sensibilidade para compreender aquele que procura ajuda, portanto a compreensão daquilo que lhe é adequado, daquilo que se ergue acima dele (o cliente) mesmo, para algo mais abrangente. Muitas vezes a solução de uma Constelação, e o processo de ajuda do terapeuta está na sabedoria de perceber o que é melhor e o que a “alma” está precisando ou necessitando como experiência.

Esta técnica serve à alma e não ao ego. Na maioria das vezes o que o cliente busca é muito mais profundo do que ele fala e pede. Na verdade, o terapeuta precisa aprender a desenvolver habilidades para conseguir entrar no campo da Constelação e ver e dar o que de fato àquela alma necessita.

Estas habilidades são descritas como:

Observação, percepção, compreensão, intuição e sintonia.

Observação: Olhar além do que está vendo, ver detalhes de forma aguçada e exata, onde nada escapa.

Percepção: Ela é distanciada do objeto de observação. Percebemos simultaneamente os detalhes e o conjunto. O terapeuta deve estar dentro do campo mas não envolvido com ele.

Compreensão: A compreensão necessita da observação e da percepção. Compreensão é entender não com a mente mas com a alma, com a essência, sem julgamento podemos mergulhar no essencial para o cliente.

Intuição: É quando nos abrimos para além da compreensão. É muitas vezes o que nos conduz para o próximo passo.

Sintonia: Ela é um nível de vibração, onde eu me “afino” com a vibração do cliente, e com tudo que vem dele, principalmente sua ancestralidade.

Para que aconteça o desenvolvimento de uma Constelação Familiar, o terapeuta além de necessitar se abrir para o desenvolvimento dessas habilidades descritas acima, ele deve respeitar ordens que o Bert Hellinger acredita que seja a base para o terapeuta de Constelação, o que ele denominou ordens da ajuda.

Ordens da ajuda são, portanto, leis ou princípios que devem presidir nossos comportamentos como terapeutas. São elas:

1º ordem: Dar apenas o que temos – Tomar aquilo que somente necessitamos. Não agir – Mostrar o que está ali.

2º ordem: Só ajudar quando o cliente permitir.

3º ordem: Se colocar no lugar de terapeuta e nunca dos pais do cliente. Dar aos pais do cliente, portanto, um lugar de respeito.

4º ordem: Não olhar só para o cliente, mas sim para todos, daquele sistema. O cliente não deve ser visto com um ser isolado.

5º ordem: Estar a serviço da reconciliação – Sobretudo com os pais.

Para isto o terapeuta necessita principalmente de romper com preconceitos, julgamentos, conceitos conhecidos e pré determinados, indignação moral em todos os níveis e condenação.

Isso faz você estar capacitado não só, para ser um terapeuta de Constelação para a ajuda, mas antes de tudo, um ser humano mais capacitado para a vida.
Celma Nunes Villa Verde Terapeuta de Constelação Familiar
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Você está pronto para as “Novas Constelações?”

"Numa “Constelação Familiar Tradicional”, o cliente escolhe um tema que esteja o afligindo naquele momento em sua vida, porém nas “Novas Constelações” não há um pedido, não necessitamos de um motivo aparente para constelar. Neste caso, o que é importante vem à luz. Assim, configuramos um representante para a pessoa (cliente) e vemos o que acontece, sem nenhuma palavra, estamos em outro nível dimensional, onde não queremos nada, onde não temos nenhuma intenção. Em pouco tempo tudo vem à luz e se torna claro, sem se falar nada. Chamamos de movimento das forças criadoras. Sem pergunta, sem objetivo, os representantes sendo levados para outro nível paradimensional. Quando o cliente está em paz, terminamos o trabalho sem dizer nada.

Para onde nos leva esta força? Para várias possibilidades.

Nas “Novas Constelações”, o problema principal que estava inconsciente para a pessoa, se revela, é trabalhado, e assim, ela pode seguir em frente.

A pergunta que cabe aqui é: o que acontece com o terapeuta? Como fica o ego do terapeuta diante da única verdade que é a de revelar o campo e se retirar, diante da impotência de tal revelação sem poder sequer traduzir esta imagem que se revela ali. Terá que estar muito maduro e muito à serviço de uma força maior.

E o cliente? Está pronto e maduro para se entregar a uma escolha desta?"                                                                  (Celma Nunes Villa Verde)

Nem sempre o terapeuta está pronto... mas tudo está certo! Cada um tem seu momento...assim como o cliente também sempre encontra o terapeuta que ele necessita.
Nesta seara o processo de auto conhecimento é uma premissa importantíssima para a qualificação do terapeuta, pois sem isso não partiremos para algo mais profundo.
Boa semana
Tais

domingo, 26 de novembro de 2017

Deixar ir é revolucionário.


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“Eu sofri por muitas catástrofes na minha vida, a maioria nunca aconteceu.“ A frase do escritor americano MarkTwain. Mas podia ser minha. Ou sua. Quanto ansiedade e sofrimento evitaríamos simplesmente nos livrando dos pensamentos que antecipam problemas e conflitos… Que nunca acontece. Ou, se acontecem, são menores e menos dramática do que suponhamos. Aquietar a turbulência mental deflagrada diante de uma situação difícil é uma das pequenas grandes revoluções pessoais que podemos fazer para viver e trabalhar melhor. Não é fácil calar a voz interna. Ou torná-la mais gentil. Trata-se, afinal, de um recurso de sobrevivência. O Homo Sapiens desenvolveu habilidades de associar eventos presentes e passadas para imaginar (e se precaver de) consequências futuras.

Na vida Moderna, a ferramenta de proteção da espécie virou combustível de ansiedade. No ambiente de trabalho, atinge principalmente as mulheres (que costumam ser implacáveis consigo mesmas) e é uma faísca para o bornout. “ Quando colocamos atenção no aqui agora, interrompemos a espiral dos pensamentos que ampliam atormenta emocional das situações difíceis e recuperamos a clareza para raciocinar” afirma a jornalista e criadora de um programa de Mindfulness , Regina Giannetti. Mindfulness, explica, “ É um estado de consciência que você se coloca quando observa a sua experiência com atenção plena“. Em outras palavras, é o que você sente ao focarem exatamente naquilo que está fazendo. “Imagine que cometeu um erro no trabalho“, diz Regina. “Nossa voz interna trata de antecipar arreveses — o desapontamento do chefe, perda de uma promoção o bônus, o dano na imagem etc“. A Escalada pode chegar até a demissão… Imaginária. “O melhor em interromper a progressão dos pensamentos. Não julga-los,não combatê-los, apenas deixá-los ir.” E voltar ao momento presente. “O que é possível fazer?“ Se a resposta for nada, que seja nada então, página virada.

Aprender a deixar ir a um poderoso antídoto ante-stress, necessária ambientes competitivos. Exige disciplina, comprometimento e Auto compaixão. A prática diária, baseada nos princípios milenários da meditação, consiste em parar, sentar, respirar e permanecer, Por certo tempo, como observador de si mesmo. Quanto mais nos dedicarmos a essa “malhação cerebral”, mas aprenderemos a identificar certos padrões. “Eu sempre penso nisso. E, por que reagiu assim?” “Porque tal pessoa ou situação me deixa nervosa?” Reconhecer modelos negativos é o primeiro passo para mandá-los. Nisso se funda a Neuro plasticidade, a capacidade da mente de se adaptar.

Um exemplo bem prático: se passou muito tempo com raiva ou medo, meu cérebro entende que a saia é super utilizada e, portanto, deve ser “abobada“. Em um processo chamado de poda sináptica, que acontece enquanto dormimos, a “jardinagem cerebral“ se encarrega de estimular as áreas que estamos usando ele reduzir as que entendi como “sem uso“. A poda não tem juízo de valor. Mas nossa consciência, sim. Ela nos leva a oportunidade de escolher como vamos nos comportar. Não é automático nem receita de bolo; é uma reflexão importante. Podemos optar para sofrer menos e trabalhar com mais leveza. E deixar ir o resto.
Cynthia Almeida-jornalista

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Chega a ser paradoxal...quando "solto" a pretensão tudo acontece.
Experimente aceitar tudo que é...como é...e sinta a delícia de poder desfrutar daquilo que nos cabe!
Todos viemos para servir á algo. A que sirvo? 
Para "ver e sentir" faz-se necessário soltar.
Boa semana
Taís