domingo, 15 de julho de 2018

Ajudar? As Ordens da ajuda segundo Bert Hellinger

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Ajuda como compensação 

"Nós, seres humanos, dependemos, sob todos os aspectos, da ajuda dos outros, como condição de nosso desenvolvimento. Ao mesmo tempo, precisamos também de ajudar outras pessoas. Aquele de quem não se necessita, aquele que não pode ajudar outros, fica só e se atrofia. O ato de ajudar serve, portanto, não apenas aos outros, mas também a nós mesmos. Via de regra, a ajuda é um processo recíproco, por exemplo, entre parceiros. Ela se ordena pela necessidade de compensar. Quem recebeu de outros o que deseja e precisa, também quer dar algo, por sua vez, compensando a ajuda. 

Muitas vezes, a compensação que podemos fazer através da retribuição é limitada. Isso ocorre, por exemplo, em relação a nossos pais. O que eles nos deram é excessivamente grande, para que o possamos compensar dando-lhes algo em troca. Só nos resta, em relação a eles, o reconhecimento pelo que nos deram e o agradecimento que vem do coração. A compensação pela doação, com o alívio que dela resulta, só se consegue, nesse caso, repassando essa dádiva a outras pessoas: por exemplo, aos próprios filhos. 

Portanto, o processo de tomar e de dar se processa em dois diferentes patamares. O primeiro, que ocorre entre pessoas equiparadas, permanece no mesmo nível e exige reciprocidade. O outro, entre pais e filhos, ou entre pessoas em condição superior e pessoas necessitadas, envolve um desnível. 
Tomar e dar se assemelham aqui a um rio, que leva adiante o que recebe em si. Essa forma de tomar e dar é maior, e tem em vista também o que virá depois. Nesse modo de ajudar, o que foi doado se expande. Aquele que ajuda é tomado e ligado a uma realização maior, mais rica e mais duradoura. Esse tipo de ajuda pressupõe que nós próprios tenhamos primeiro recebido e tomado. Pois só então sentimos a necessidade e temos a força para ajudar a outros, especialmente quando essa ajuda exige muito de nós. Ao mesmo tempo, ela parte do pressuposto de que as pessoas a quem queremos ajudar também necessitam e desejam o que podemos e queremos dar a elas. Caso contrário, nossa ajuda se perde no vazio. Então ela separa, ao invés de unir. 

A primeira ordem da ajuda 

A primeira ordem da ajuda consiste, portanto, em dar apenas o que temos, e em esperar e tomar somente aquilo de que necessitamos. A primeira desordem da ajuda quando uma pessoa quer dar o que não tem, e a outra quer tomar algo de que não precisa; ou quando uma espera e exige da outra algo que ela não pode dar, porque não tem. Há desordem também quando uma pessoa não tem o direito de dar algo, porque com isso tiraria da outra pessoa algo que somente ela pode ou deve carregar, ou que somente ela tem a capacidade e o direito de fazer. Assim, o dar e o tomar estão sujeitos a limites, e pertence à arte da ajuda percebê-los e respeitá-los. 

Essa ajuda é humilde, e muitas vezes, em face da expectativa e da dor, ela renuncia a agir. O trabalho com as constelações familiares coloca diante de nossos olhos o que deve exigir quem ajuda, tanto de si mesmo quanto da pessoa que busca ajuda. Essa humildade e essa renúncia contradizem muitas concepções usuais sobre a correta maneira de ajudar, e freqüentemente expõem o ajudante a graves acusações e ataques. 

A segunda ordem da ajuda 

A ajuda está a serviço da sobrevivência, por um lado, e da evolução e do crescimento, por outro. Todavia, a sobrevivência, a evolução e o crescimento também dependem de circunstâncias especiais, tanto externas quanto internas. Muitas circunstâncias externas são preestabelecidas e não são modificáveis: por exemplo, uma doença hereditária, as conseqüências de acontecimentos ou de uma culpa. Quando a ajuda deixa de considerar as circunstâncias externas ou se recusa a admiti-las, ela se condena ao fracasso. Isto vale, com maior razão, para as circunstâncias internas. Elas incluem a missão pessoal particular, o envolvimento nos destinos de outros membros da família, e o amor cego que, sob o influxo da consciência, permanece vinculado ao pensamento mágico. O que isso significa em casos particulares eu expus exaustivamente em meu livro “ Ordens do Amor”, no capítulo “Do céu que faz adoecer, e da terra que cura”. 

Para muitos ajudantes, o destino da outra pessoa pode parecer difícil, e gostariam de modificá-lo; não, porém, muitas vezes, porque o outro o necessite ou deseje, mas porque os próprios ajudantes dificilmente suportam esse destino. E quando o outro, não obstante, se deixa ajudar por eles, não é tanto porque precise disso, mas porque deseja ajudar o ajudante. Então, quem ajuda realmente está tomando, e quem recebe a ajuda se transforma em doador. 

A segunda ordem da ajuda é, portanto, que ela se amolde às circunstancias e só intervenha com apoio na medida em que elas o permitem. Essa ajuda mantém reserva e possui força. Há desordem da ajuda, neste caso, quando o ajudante nega as circunstâncias ou as encobre, ao invés de encará-las, juntamente com a pessoa que busca a ajuda. Querer ajudar contra as circunstâncias enfraquece tanto o ajudante quanto a pessoa que espera ajuda ou a quem ela é oferecida ou mesmo imposta. 

O protótipo da ajuda 

O protótipo da ajuda é a relação entre pais e filhos e, principalmente, a relação entre a mãe e o filho. Os pais dão, os filhos tomam. Os pais são grandes, superiores e ricos, ao passo que os filhos são pequenos, necessitados e pobres. Contudo, porque os pais e os filhos são ligados entre si por um profundo amor, o dar e o tomar entre eles pode ser quase ilimitado. Os filhos podem esperar quase tudo de seus pais. E os pais estão dispostos a dar quase tudo a seus filhos. Na relação entre pais e filhos, as expectativas dos filhos e a disposição dos pais para atendê-las são necessárias; portanto, estão em ordem. 

Contudo, elas só estão em ordem enquanto os filhos ainda são pequenos. Com o avançar da idade, os pais vão impondo aos filhos, em escala crescente, limites com os quais eles eventualmente se atritam e podem amadurecer. Estarão sendo os pais, nesse caso, menos bondosos para com seus filhos? Seriam pais melhores se não colocassem limites? Ou, pelo contrário, eles se manifestam como bons pais justamente ao exigirem de seus filhos algo que também os prepara para uma vida de adultos? Muitos filhos ficam então com raiva de seus pais, porque preferem manter a dependência original. Contudo, justamente porque os pais se retraem e desiludem essas expectativas, eles ajudam seus filhos a se livrarem dessa dependência e, passo a passo, a agirem por própria responsabilidade. Só assim os filhos tomam o seu lugar no mundo dos adultos e se transformam de tomadores em doadores. 

A terceira ordem da ajuda 

Muitos ajudantes, por exemplo, na psicoterapia e no trabalho social, acham que precisam ajudar os que lhes pedem ajuda, da mesma forma como os pais ajudam seus filhos pequenos. Inversamente, muitos que buscam ajuda esperam que os ajudantes se dediquem a eles como os pais se dedicam a seus filhos, no intuito de receber deles, tardiamente, o que esperam e exigem dos próprios pais. 

O que acontece quando os ajudantes correspondem a essas expectativas? Eles se envolvem numa longa relação. Aonde leva essa relação? Os ajudantes ficam na mesma situação dos pais, em cujo lugar se colocaram com essa vontade de ajudar. 

Passo a passo, eles precisam impor limites aos que buscam ajuda, decepcionando-os. Então estes desenvolvem freqüentemente, em relação aos ajudantes, os mesmos sentimentos que tinham antes em relação a seus pais. Assim, os ajudantes que se colocaram no lugar dos pais, querendo mesmo, talvez, ser pais melhores, tornam-se, para os clientes, iguais aos pais deles. Porém muitos ajudantes permanecem presos na transferência e na contratransferência da relação entre filho e pais. Com isso, dificultam ao cliente a despedida, tanto de seus pais quanto dos próprios ajudantes. Ao mesmo tempo, uma relação segundo o modelo da transferência entre pais e filhos impede também o desenvolvimento pessoal e o amadurecimento do ajudante. 

Vou ilustrar isso com um exemplo: 

Quando um homem jovem se casa com uma mulher mais velha, ocorre a muitos a imagem de que ele procura um substitutivo para sua mãe. E o que procura ela? Um substitutivo para seu pai. Inversamente, quando um homem mais velho se casa com uma moça mais jovem, muitos dizem que ela procurou um pai. E ele? Procurou uma substituta para sua mãe. Assim, por estranho que soe, quem se obstina por muito tempo numa posição superior e mesmo a procura e quer manter, recusa-se a assumir seu lugar entre adultos equiparados. 

Existem, porém, situações, em que convém que, por algum tempo, o ajudante represente os pais: por exemplo, quando um movimento amoroso precocemente interrompido precisa ser levado a seu termo. Contudo, diferentemente da transferência da relação entre pais e filhos, o ajudante apenas representa aqui os pais reais. Ele não se coloca em lugar deles, como se fosse uma mãe melhor ou um pai melhor. Por esta razão, também não é preciso que o cliente se desprenda do ajudante, pois este o leva a afastar-se dele e a voltar-se para os próprios pais. Então o ajudante e cliente se liberam mutuamente. 

Mediante a adoção desse padrão de sintonia com os pais verdadeiros, o ajudante frustra, desde o início, a transferência da relação entre os pais e o filho. Pois, quando respeita em seu coração os pais do cliente, e fica em sintonia com esses pais e seus destinos, o cliente encontra nele os seus pais, dos quais já não pode esquivar-se. A mesma coisa vale quando o ajudante precisa lidar com crianças ou deficientes físicos. Na medida em que ele apenas representa os pais, e não se coloca em seu lugar, os clientes podem sentir-se em segurança com ele. 

A terceira ordem da ajuda seria, portanto, que, diante de um adulto que procura ajuda, o ajudante se coloque igualmente como um adulto. Com isso, ele recusa as tentativas do cliente para fazê-lo assumir o papel dos pais. É compreensível que essa atitude do ajudante seja sentida e criticada, por muitas pessoas, como dureza. Paradoxalmente, essa “dureza” é criticada por muitos como arrogância. Quem olha bem, vê que a arrogância consistiria antes no envolvimento do ajudante numa transferência da relação entre pais e filho. 

A desordem da ajuda consiste aqui em permitir a um adulto que faça ao ajudante as exigências de um filho a seus pais, para que o trate como criança e o poupe de algo pelo qual somente o cliente pode e deve carregar a responsabilidade e as conseqüências. É o reconhecimento dessa terceira ordem da ajuda que constitui a mais profunda diferença entre o trabalho das constelações familiares e psicoterapia habitual. 

A quarta ordem da ajuda 

Sob a influência da psicoterapia clássica, muitos ajudantes freqüentemente encaram seu cliente como um indivíduo isolado. Com isso, também se expõem facilmente ao risco de assumirem a transferência da relação entre pais e filho. Contudo, o indivíduo é parte de uma família. Somente quando o ajudante o percebe assim é que ele percebe de quem o cliente precisa, e a quem ele possivelmente está devendo algo. 

O ajudante realmente percebe o cliente a partir do momento em que o vê junto com seus pais e antepassados, e talvez também junto com seu parceiro e com seus filhos. Então ele percebe quem, nessa família, precisa principalmente de sua atenção e de sua ajuda, e a quem o cliente precisa dirigir-se para reconhecer os passos decisivos e levá-los a termo. Isto significa que a empatia do ajudante precisa ser menos pessoal e – principalmente - mais sistêmica. Ele não se envolve num relacionamento pessoal com o cliente. Esta é a quarta ordem da ajuda. 

A desordem da ajuda, neste caso, consistiria em não contemplar nem honrar outras pessoas essenciais, que teriam em suas mãos, por assim dizer, a chave da solução. Incluem-se entre elas, sobretudo, aquelas que foram excluídas da família, por exemplo, porque os outros se envergonharam delas. 

Também aqui é grande o perigo de que essa empatia sistêmica seja sentida como dureza pelo cliente, sobretudo por aqueles que fazem reivindicações infantis ao ajudante. Pelo contrário, aquele que busca a solução, de maneira adulta, sente esse enfoque sistêmico como uma liberação e uma fonte de força. 

A quinta ordem da ajuda 

O trabalho da constelação familiar aproxima o que antes estava separado. Nesse sentido, ele está a serviço da reconciliação, sobretudo com os pais. O que impede essa reconciliação é a distinção entre bons e maus membros da família, tal como é feita por muitos ajudantes, sob o influxo de sua consciência e de uma opinião pública presa nos limites dessa consciência. Por exemplo, quando um cliente se queixa de seus pais, das circunstâncias de sua vida ou de seu destino, e quando um ajudante se associa à visão desse cliente, ele serve mais ao conflito e à separação do que à reconciliação. Portanto, alguém só pode ajudar, no sentido da reconciliação, quando imediatamente dá um lugar em sua alma à pessoa de quem o cliente se queixa. Assim, o ajudante antecipa na própria alma o que o cliente ainda precisa realizar na sua. 

A quinta ordem da ajuda é portanto o amor a cada pessoa como ela é, por mais que ela seja diferente de mim. Dessa maneira, o ajudante abre a essa pessoa o seu coração, de modo que ela se torna parte dele. Aquilo que se reconciliou em seu coração também pode reconciliar-se no sistema do cliente. A desordem da ajuda seria aqui o julgamento sobre outros, que geralmente é uma condenação, e a indignação moral associada a isso. Quem realmente ajuda, não julga. 

A percepção especial 

Para poder agir de acordo com as ordens da ajuda, não é preciso qualquer percepção especial. O que eu disse aqui sobre as ordens da ajuda não deve ser aplicado de forma precisa e metódica. Quem tentar isso estará pensando, ao invés de perceber. Ele reflete e recorre a experiências anteriores, em vez de se expor á situação como um todo e apreender dela o essencial. Por isso, essa percepção envolve ambos os aspectos: ela é simultaneamente direcionada e reservada. Nessa percepção, eu me direciono a uma pessoa, porém sem querer algo determinado, a não ser percebê-la interiormente, de uma forma abrangente, e com vistas ao próximo ato que se fizer necessário. 

Essa percepção surge do centramento. Nela, eu abandono o nível das ponderações, dos propósitos, das distinções e dos medos, e me abro para algo que me move imediatamente, a partir do interior. Aquele que, como representante numa constelação, já se entregou aos movimentos da alma e foi dirigido e impelido por eles de uma forma totalmente surpreendente, sabe de que estou falando. Ele percebe algo que, para além de suas idéias habituais, o torna capaz de ter movimentos precisos, imagens internas, vozes interiores e sensações inabituais. Esses movimentos o dirigem, por assim dizer, de fora, e simultaneamente de dentro. Perceber e agir acontecem aqui em conjunto. Essa percepção é, portanto, menos receptiva e reprodutiva. Ela é produtiva; leva à ação, e se amplia e aprofunda no agir. 

A ajuda que decorre dessa percepção é geralmente de curta duração. Ela fica no essencial, mostra o próximo passo a fazer, retira-se rapidamente e despede o outro imediatamente em sua liberdade. É uma ajuda de passagem. Há um encontro, uma indicação, e cada um volta a trilhar o próprio caminho. Essa percepção reconhece quando a ajuda é conveniente e quando seria antes danosa. Reconhece quando a ajuda coloca tutela ao invés de promover, e quando serve para remediar antes a própria necessidade do que a do outro. E ela é modesta."
Texto extraído da internet, sem menção da autoria
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Este conteúdo pode parecer complexo pois é uma visão diferente da habitual... mas ele pode ajudar a nos posicionarmos em relação às disfunções em nosso sistema familiar e até na hora da escolha de um terapeuta.
Essa visão é sistêmica, onde o se humano está inserido em um sistema maior ( família, grupos, empresa, etc...), e se relaciona com ele. 
Na percepção  linear, uma dificuldade de um filho por exemplo, é o problema em si, um elemento que precisa ser retirado da situação em si, a qualquer custo. Porém,dentro de uma visão sistêmica, o problema é do sistema que o produziu, e é justamente esse sistema que precisa ser modificado, para que não continue retroalimentando a questão .
A visão linear nas relações  humanas responde pelos conflitos  de toda espécie, pois é através da eleição de um culpado que a outra parte consegue canalizar todo o seu desconforto. É o velho modelo cartesiano de AxB.
Bom final de semana.
Tais

domingo, 8 de julho de 2018

Três vilões dos relacionamentos: Carência, Apego e Jogos de poder.

Carência
"Nascemos desprotegidos, vulneráveis, passivos e carentes. Dependendo de como essa vida foi levada à diante essa é a fórmula perfeita para um desastre a longo prazo.
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Insaciável
Somos seres necessitados! Necessitamos de água, comida, sol, pessoas, amor, lazer, trabalho, sexo, crescimento e sentido de vida. Buscamos atender nossas necessidades a todo momento.

A maneira que atendemos as necessidades determina o modo como viveremos pela vida toda. Podemos cultivar uma mente insaciável, voraz e exigente em relação às vontades.

A fome é uma necessidade básica, isso não quer dizer que você deva atendê-la sem critério, direcionamento e parada. Para atendê-la você pode escolher um cardápio saudável, preparar sua comida, convidar alguém para compartilhar do alimento e se saciar com uma quantidade razoável.

Mas além da fome queremos matar a carência.

A origem
A carência é uma ilusão emocional que criamos na tentativa de compensar uma “falta” que tivemos ao longo da vida. Atribuímos essa falta aos pais. Lamentamos que eles não deram tudo aquilo que gostaríamos.

Para o insatisfeito sempre houve menos amor, atenção, tempo e incentivo do que gostaria. Carência emocional é essa reivindicação não atendida dos pais.

Se parasse por aí seria bom, o problema é que continuamos a exigir atenção exclusiva, intensa e constante de tudo o que transita ao nosso redor.

Bebemos agua do mar e quanto mais bebemos maior a sede.

Exigimos algo de outra ordem que nada tem a ver com o momento presente.

Escravidão
O carente é escravo de receber. Só receber.

A pessoa carente entra numa relação amorosa esperando receber do outro tudo aquilo que fantasia merecer. Sente-se no direito de ser recompensada por cada gesto, afago ou elogio que dá. Na realidade é uma falsa doadora, espera receber na mesma moeda e com juros.

A pessoa carente se mostra frágil e dependente de atenção e provoca a sensação de que por mais que receba nada basta ou é suficiente.

No relacionamento amoroso
Essa base de relação é a maior causa de desastres emocionais, pois a carência é mãe do ciúmes, da inveja, das exigências sem sentido, das brigas por atenção exclusiva, do tédio e do sentimento de insuficiência de uma relação.

Depois de um tempo de relacionamento nada que o outro faça é o suficiente, o nível de exigência vai aumentando e criando uma demanda insustentável. O carente exige mais e mais, votos de compromisso, lealdade, integridade, exclusividade e tentar manter a pessoa amada numa redoma de vidro.

O carente faz isso nos relacionamentos e na vida, pois nem percebe que sempre está tentando cativar a atenção dos outros.

Pessoas exibidas são carentes, os barraqueiros igualmente, os pegajosos já são conhecidos, mas as pessoas frias também (quanto maior a carência maior a proteção numa casca de autossuficiência).

Maneira que vê o mundo
A pessoa carente sempre tem um pensamento de escassez. Tudo pode acabar a qualquer momento, está sempre mesquinhando emoções. Grita em seus pensamentos que algo desastroso vai acontecer. Por isso pode se transformar em possessiva daqueles que agarram você de fato e aqueles que usam de artimanhas emocionais para manter você numa teia psicológica.

O que seria uma pessoa não carente?

Seria alguém que não responsabiliza alguém ou uma situação para abastecer suas necessidades. Ao inves de pedir ou receber algo ela possibilita experiências em conjunto. Sabe que a vida não acontece quando você recebe mas quando você possibilita um espaço em que algo produtivo aconteça. A pessoa não-carente proporciona um espaço como alguém que abre uma roda de dança para que cada um se manifeste livre, sem exigências, pressão ou formato definido.

A base da não-carência é a generosidade desprendida. Se quer deixar de ser carente ofereça algo de si para alguém livre dos resultados.

Apego 
O apego nasce do desejo de que as coisas fiquem sobre nosso controle. É uma vontade de que tudo permaneça imóvel, como está, sem alterações ou movimentos imprevisíveis.
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Apegado? Eu?

Origem
Há um processo natural de desmame que a criança vai lentamente se desapegando do corpo da mãe e criando a representação psíquica dela.

Depois a criança usa o paninho, o travesseiro e começa a se relacionar com o mundo de forma ampla expandindo o símbolo da mãe.

No entanto, esse desmane pode não acontecer de forma tão saudável quanto gostaríamos, normalmente não é. No meio do caminho acontecem falhas mais graves, ações menos intensas, descuidos e acidentes.

A capacidade da criança de se desligar de algo com segurança fica abalada.Essa repercussão pode se arrastar por uma vida inteira.

O apego é inabilidade de deixar que o fluxo natural da vida aconteça.

Desafio
Faça um exercício: você seria capaz de partir agora mesmo e ir para um lugar absolutamente estranho?

Esse pequeno treino mental é o suficiente para você identificar no que é apegado.

A segurança que buscamos em nossas emoções direciona a qualidade da vida que levaremos. Quanto maior a sede por segurança, estabilidade e previsibilidade maior o nível de sofrimento.

Nos relacionamentos
Quando você se apega à pessoa que ama, na realidade está apegado ao conforto que a presença dela causa em você. Você está condicionado à sensação de constância e continuidade que a imagem da pessoa amada provoca. Quando ela muda algum comportamento habitual ou rompe a relação a grande ferida é naquele tecido sutil que compõe nosso psiquismo.

O desespero de um rompimento é por conta da quebra interna da segurança que investimos por muito tempo.

“Eu não vivo sem ele!”

Essa frase já revela um engano crucial. A pessoa já vivia sem ele, antes que o encontrasse, vai sobreviver depois. O que ela não vive é sem a sensação de aparente segurança e poder que o apego provoca.

Ela precisa ampliar o direcionamento de seus interesses para além da fixação que criou em torno de uma pessoa. É um processo que parece doloroso exatamente pelo vício emocional da pessoa apegada.

Na vida
O apego é a resistência à mudança e vida é movimento contínuo. O apego é uma postura psicológica que impede a vida de prosseguir. A pessoa apegada tenta interromper o fluxo natural dos acontecimentos tentando impedir que o tempo passe, as coisas se alterem e as pessoas mudem.

A pessoa apegada de tão possessiva nem percebe que ela própria está privada de liberdade.

O apego é a ansia por congelar a realidade, manter cada coisa como se fosse a mesma. Mas como paralisar pensamentos, sentimentos e pessoas para que não mude? Como deter a passagem do tempo incessantemente?

Mudança
O não-apego é um treino mental continuado. Algumas pessoas confundem desapego com não-envolvimento. Para se desapegar é necessário o envolvimento. No entanto, para evitar a sensação de colapso de seu sentimento de estabilidade a pessoa evita qualquer tipo de envolvimento. A frieza emocional não poupa ninguém, apenas adia o problema. A pessoa fria está apegada na imagem de desapego, é só uma outra forma de fixação mental.

Exercício
Faça um exercício mental diário. Se desfaça de pequenas ideias que você acha que definem você. Questione suas caraterísticas mais singulares? Reflita sobre como seria ter uma outra realidade que não essa. Faça um treino para a morte, o desapego final! Pense na sua vida cabendo em apenas uma mala de viagem, o que colocaria ali?

Poder
“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. " - Carl Gustav Jung 
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Nascemos submetidos pelos adultos e morremos submetidos pelo corpo cansado.

Entre um evento e outro brigamos por submeter algo ou alguém. É assim que a vida acontece.

É assim que sentimos pela vida toda !

Não gostamos de admitir, mas a verdade é que o poder nos fascina.

O poder enquanto relação de hierarquia sempre está presente, goste ou não.

Sempre haverá alguém mais culto, inteligente, bonito, simpático, esperto e sociável que você. A voz de comando sempre pertece àquele que domina uma habilidade ou tem um atributo valorizado socialmente.

Mesmo quando uma pessoa abdica de algum poder ela busca o poder de saber que não se submete.

Relacionamento amoroso
Existe um tecido delicado de forças num relacionamento amoroso. Enquanto há recompensa de poder a relação perdura. É como se houvesse uma balança que equilibra os créditos e os débitos emocionais.

Se você sente que fez algo para o relacionamento de modo “desinteressado” inconscientemente está em crédito emocional. Quando a pessoa retribui essa balança se equilibra de novo.

Uma mulher que se submete a um marido alcóolatra por muitos anos certamente sente o poder de ser alguém que luta pela família. É comum as esposas de ex-alcoolistas adotarem uma postura maternal com outras pessoas que não o marido. É um prazer secreto por se sentir superior ao marido “bebum”.

Mesmo quando submetida a pessoa busca o poder na sensação de resistência e lealdade àlguma causa.

Os disfarces de poder
A sensação de muitas pessoas boas pode ser fruto de uma sede de poder. Querem ser as mais caridosas a ponto de recusarem elogios e se assumirem incapazes de tanto. O poder de ser moralmente superior. É comum os bondosos permanecerem ressentidos daquilo que tem que abrir mão em favor do bem.

As mentiras que contamos diariamente são tentativas de sustentar nossa sede de poder. Mentimos para simular um bem-estar e boas relações com o intuito de ficar por cima.

Traduzo autoestima como o desejo de se sentir importante aos olhos dos outros. Quem sente a baixa autoestima é porque não conseguiu se sentir importante para alguém.

As amizades podem ser palcos para disputa de poder. Alguém da turma é sempre elegido como a vítima e os demais seguem o macho alfa.

Os meios
O sexo costuma ser uma barganha utilizada pela mulher para controlar os homens. Alguns homens usam o dinheiro para dominar suas mulheres. Os calmos se sentem superiores aos estourados. Os espertos se sentem mais importantes do que são.

A questão é que o relacionamento amoroso será um palco de competição. É um comércio de amor. Um tentando dominar as vontades do outro. É nesse jogo que a maior parte dos relacionamentos estaciona.

Disputam atenção, risos, convites, olhares e admirações que trazem aquela sensação de bem-estar.

Brigas de casal
Veja como isso é desastroso numa relação amorosa, pois ao sustentar o poder pessoal o casal perde a medida do compartilhamento. Inconscientemente vêem o parceiro como um oponente, alguém que atrapalha sua felicidade. Mais brigas.

Já notou numa discussão que ambos querem ter a razão? Não é a razão ou respeito que buscam, mas a posição de superioridade.

As brigas são resultados dessas disputas de poder. O casal com o tempo fica testando um ao outro em sua capacidade de amor. Quem demonstra mais está por cima e o outro vai ficando amorosamente humilhado. Para recuperar a sensação de poder aquele que está por “baixo” pode reconhecer com gratidão aquilo que recebeu ou pode atacar o outro a fim de que desça também. O ciclo é interminável.

Términos de relacionamento
Quem é deixado perde o poder, quem deixa ganha. Quem foi deixado dirá muitas coisas para superar sua queda. Tentará encontrar mil explicações para amenizar a sensação terrível de ouvir “não gosto mais de você!”. E novamente tentará superar (tradução = ficar por cima) o término do relacionamento.

O que nos causa dor é ter a sensação do ego massacrado e sem perspectivas de algo mudar.

Por essa razão é tão difícil assumir que perdeu um relacionamento.

A recusa do poder
Para quebrar esse ciclo é essencial meditar sobre o quanto de auto importância você quer dar numa relação. Você quer ser feliz com alguém ou provar que ninguém domina você? Quer ter o controle ou ser surpreendido pela vida? O amor, enquanto abertura para novas movimentações emocionais, fica bloqueado quando poder entra em ação, daí a dificuldade de pessoas dominadores permanecerem por muito tempo num relacionamento."

http://www.sobreavida.com.br/2011/12/09/3-viloes-dos-relacionamentos-carencia-apego-e-jogos-de-poder/ - Frederico Mattos
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Aqui reuni os 3 artigos sobre os vilões de relacionamento de autoria do Frederico Mattos. Gosto muito dessa série (e da forma irreverente como ele escreve), pois esses são três principais vilões que faz com que, na maioria das vezes, os relacionamentos acabem.
Boa semana!
Tais

domingo, 1 de julho de 2018

Sabemos nos despedir?


"Sabemos nos despedir? Porque a despedida é uma parte fundamental para que partamos livres para novas fases. Uma das coisas que a constelação familiar deixa muito claro é que as “mortes” – que também podemos encarar como “separações” – não vistas ou não aceitas no sistema familiar permanecem “pesando” sobre os descendentes, tirando a energia vital, levando-os à atração de doenças, crises financeiras, problemas nas relações, conflitos diversos, que nos impedem de vivermos a vida com leveza, alegria, vibração, criatividade, paz.

Quantas vezes deixamos alguém querido, e não damos conta da separação? Ou às vezes, deixamos alguém que já não é mais tão querido, e carregamos a mágoa silenciosa dentro de nós por décadas? Às vezes, vivenciamos uma situação familiar difícil, e até desejamos que fulano morra, desapareça… e não é que o fulano morre!!! E carregamos a culpa por termos desejado esta partida… Em outras ocasiões, por não sabermos nos despedir de lugares, trabalhos ou pessoas, simplesmente viramos as costas. Como se nada tivesse ocorrido… embora no íntimo, sabemos que tem algo no passado mal resolvido…

Vivenciar totalmente os sentimentos

Poucas pessoas percebem que o que nos prende a algo do passado é a nossa dificuldade em vivenciar totalmente os sentimentos que a despedida provoca. Por exemplo, eu tive uma casa que eu gostava muito. Foi a primeira casa que pude comprar, junto com a companheira da época, e lá meus filhos cresceram. A paisagem era linda, e apesar de viver uma vida financeiramente difícil, tive experiências maravilhosas neste lugar. E um dia, resolvemos sair, para facilitar o trabalho e também para viver num lugar maior – estava subindo de padrão, tanto de conforto, como de conveniência! Porém, não saí tão feliz. É como algo em mim se recusasse a deixar tudo o que foi vivido naquele lugar.

Anos depois, quando já não havia mais a segunda casa, nem o casamento, e muita coisa havia mudado, investiguei profundamente este sentimento: o que me prendeu àquela casa? Bem… por exemplo: o formato arquitetônico dela era muito parecido com a casa onde vivi quando criança: eu, meu irmão e meus avós. Era uma vida muito centrada em volta daquela casa: meus pais estavam separados, viviam outras vidas, mas neste lar, eu brincava, tinha meu cachorro, estudava, lia muito, andava com meu avô, enfim, era feliz. Por alguns anos.

Após eu sair da casa dos meus avós, no meio da minha adolescência, brigado com a rigidez deles e a maluquice do meu irmão, tive um período longo de turbulência na minha vida. Comecei a beber, fumar, trabalhar, bagunçar… convivi com muitos conflitos em relação à minha mãe, depois novamente com meu irmão, e em seguida, com meu pai. Talvez simbolicamente, aquela casa antiga dos meus avós significava meu porto seguro, e sair dela, era algo como ir para o inferno! O curioso foi que meus avós também venderam aquela casa, sob o pretexto de não haver conflitos na divisão dos bens… Realmente, não havia mais o porto seguro!

Sem saber, eu reconstruí este cenário, quando casei. Coincidentemente, após sair daquela casa, muitas dificuldades começaram a surgir.

Como é louco a repetição de padrões, não é mesmo?

O grande aprendizado nas separações é saber dar conta tanto dos sentimentos bons, quanto dos ruins. E se despedir deles. Quando negamos algo, este algo persiste. Por isso, sempre oriento alunos ou pessoas que buscam meu trabalho terapêutico a observar os sentimentos. Pode até parecer piada, muitos riem quando eu falo, porque falo isso o tempo todo: olhe para os sentimentos. Abra-se a eles. Deixe de querer resolver, remediar ou anestesiar: fique consciente das suas emoções. Este é o segredo da libertação para uma nova fase!

Os padrões se repetem

Enquanto não sabemos dar conta dos sentimentos internos, acabamos atraindo padrões semelhantes na nossa vida. Trocamos de casa, de namorado, de emprego, de religião… mas acabamos sempre batendo de frente com problemas parecidos. Já ao contrário, quando lidamos com sabedoria com nossas dores, nossas mágoas, nossas raivas, nossa inveja, ciúme e outras sensações desagradáveis internas, ganhamos consciência. Maturidade. Temos liberdade de agir ou não agir diante das relações. A culpa ou medo perdem importância e tomamos posse de uma suave, mas constante, força para a vida!

Fato é que as pessoas pouco se dão conta: são nossas sombras internas escondidas (e que fazemos questão de não revelá-las!) que nos mantém presos aos padrões de sofrimento, que invariavelmente acabam atraindo situações onde novamente seremos desafiados.

Nos perguntamos: quando teremos uma relação afetiva feliz? Quando me sentirei bem com o que faço? Quando estarei em paz comigo mesmo? Quando aceitarei os outros como são? Quando atrairei prosperidade?

A resposta é simples, embora exigente: quando finalmente nos despedirmos dos sentimentos mais difíceis que residem na nossa psique.

Aí, todas as despedidas de lugares, pessoas e situações poderão ser vividas plenamente. E todos os recomeços serão extremamente auspiciosos. Olharemos a vida como uma sequência infinita de encontros e despedidas, nascimentos e mortes, inícios e términos… Deixaremos de tentar aprisionar as coisas que estão indo bem (embora possamos curtir plenamente este lado bom da vida!) e também deixaremos de tentar fugir ou afastar as coisas que nos perturbam com violência e sentimento de exclusão.

Como disse o escritor alemão Hermann Hesse, “A cada chamado da vida, o coração deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias. Aberto sempre para novos compromissos. Dentro de cada começar mora um encanto que nos dá forças e nos ajuda a viver.”

Que saibamos vivenciar este fluxo!"

Alex Possato - https://constelacaosistemica.wordpress.com