domingo, 30 de agosto de 2020

O surpreendente efeito de aceitar

Se você não solta o passado, como vai agarrar o futuro?
O alemão Bert Hellinger, terapeuta e criador da cada vez mais popular “Constelações Familiares“, ou “Constelações Sistêmicas“, é autor de diversos livros sobre o que chama de princípios e leis dos relacionamentos humanos, como “A Simetria Oculta do Amor” e “O Essencial é Simples“, e deles vem uma série de aforismos profundos sobre auto-conhecimento e a cura de relações. 

Um deles, por exemplo, diz que “o critério para o que é bom é baseado no que traz alívio a alguém, o que traz alegria ou que reduz um estresse” .
Outro diz que “A experiência pode ser significativa apenas quando a deixamos pra trás. Significando: seguindo em frente, transformado”.

Mas gostaria de trazer um aqui que fala sobre a comunicação que usa o lamento, a crítica ou a queixa, algo bastante fácil de fazer, e que alguns podem entender como bastante natural, necessário até, e talvez obrigatório. 
O aforismo diz o seguinte: 
“Tudo aquilo de que me lamento ou queixo, quero excluir“, segundo Hellinger. 
A frase é o início de um texto que segue abaixo sobre um tipo de postura ou atitude psíquica reativa diante de algo ou alguém. Diante do mundo, basicamente. 

Hellinger é um estudioso e um experimentador nato, um psicoterapeuta que une um lado poderoso da observação e da capacidade de compreensão com a experiência aberta e comprometida com a verdade, então não é uma atitude muito prudente simplesmente negar essas afirmações sem uma reflexão séria. E partindo do princípio que todos nós já nos lamentamos, criticamos ou nos queixamos de alguma coisa ou de alguém, ou que podemos estar fazendo isso com certo engajamento, pode ser interessante entender o que esse curador veterano tem a dizer sobre a dimensão mais profunda dessa atitude.

Mais interessante que isso pode ser considerar a sugestão de Hellinger: integrar o que se rejeita. Fazer isso é acolher a própria sombra, reconhecer o que tivemos alienando em nós mesmos há muito tempo, e assim uma libertação — de nós mesmos e de todos os outros. Não é fácil, pois a tarefa de acusar e criticar é, em si mesma, um mecanismo de não ver e de continuar não vendo (vemos nos outros). Mas a frase inicial tem um poder especial, que talvez suscite uma curiosidade em nossa consciência, de talvez aceitá-la, de talvez pesquisá-la, de talvez experimentá-la.

“O melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossa sombra sobre os outros”.Carl G. Jung

Eis o texto:

“Tudo aquilo de que me lamento ou queixo, quero excluir. Tudo aquilo a que aponto um dedo acusador, quero excluir. A toda a pessoa que desperte a minha dor, estou a excluí-la. Cada situação em que me sinta culpado, estou a excluí-la. E desta forma vou ficando cada vez mais empobrecido.

O caminho inverso seria: a tudo de que me queixo, fito e digo: sim, assim aconteceu e integro-o em mim, com todo o desafio que para mim isso representa. 
E afirmo: irei fazer algo com o que me aconteceu. Seja o que for que me tenha acontecido, tomo-o como a uma fonte de força. 

É surpreendente o efeito que se pode observar neste âmbito. Quando integro aquilo que antes tinha rejeitado, ou quando integro aquilo que é doloroso para mim, ou que produz sentimentos de culpa, ou o que quer que me leve a sentir que estou a ser tratado de forma injusta, o que quer que seja… quando tento incorporar tudo isso, nem tudo cabe em mim. Algo fica do lado de fora. Ao consentir plenamente, somente a força é internalizada. Tudo o resto fica de fora sem me contaminar. Ao invés, desinfecta, purifica-me. A escória fica de fora, as brasas penetram no coração.”

 Bert Hellinger

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domingo, 23 de agosto de 2020

O inútil


A vida é dialética – é o movimento do espírito, um método muito eficaz para aproximar as ideias individuais às ideias universais. É por isso que não é lógica. Lógica significa que o oposto é de fato oposto, mas na vida, o oposto não é realmente o oposto, é o complementar. Sem ele nada é possível.

Por exemplo, a vida existe por causa da morte. Se não houver morte não pode haver vida. A morte não é o fim e a morte não é o inimigo – em vez disso, pelo contrário, por causa da morte a vida torna-se possível.

Existe a luz, existem as trevas. Para a lógica eles são opostos, e a lógica vai dizer: Se há luz, não pode haver escuridão; se estiver escuro, então não pode haver luz. Mas a vida diz exatamente o contrário. A vida diz: Se há luz é por causa das trevas. Podemos não ser capazes de ver o outro, mas ele está escondido ao virar a esquina.

Há silêncio por causa do som. Se não houver som, você pode ficar em silêncio? Como você pode ficar em silêncio? O oposto é necessário como um pano de fundo. Aqueles que seguem a lógica sempre erram, porque a sua vida torna-se desequilibrada. Eles pensam na luz, então começam a negar a escuridão; eles pensam na vida, então começam a brigar com a morte.

Só as mentes pequenas são coerentes, quanto mais estreita a mente, mais coerente ela é. Quando a mente é muito vasta, ela envolve tudo – a luz está lá, a escuridão está lá. Deus existe e o diabo também, em toda a sua glória.

Se você entender esse processo misterioso da vida, que se move através dos opostos, que é dialético, em que o oposto ajuda, dá equilíbrio, dá o tom, serve de pano de fundo, então você pode entender Chuang Tzu – porque toda a visão Taoista é baseada na complementariedade dos opostos.

O oposto se torna o imã, ele puxa você; o oposto o traz para fora de si mesmo, o oposto quebra a sua prisão, o oposto faz com que você seja vasto. E sempre que o oposto é negado, é um problema. E é isso que temos feito, por isso há tantos problemas no mundo.

O homem tentou criar uma sociedade que é basicamente masculina, e por isso há tantos problemas – a mulher tem sido negada, ela foi jogada fora.

Por isso, o mundo ficou feio, porque como você pode negar o oposto? Todo o equilíbrio se perdeu. O mundo enlouqueceu. O homem domina, é por isso que há tanta infelicidade. Quando uns dos polos opostos domina, haverá infelicidade porque o outro se sente magoado e haverá vingança.

Por que é que a mulher está sempre em conflito? Não é a pessoa, não é uma coisa pessoal. É a vingança do feminino, do oposto negado. E este homem na casa, o marido, é o representante de todo o mundo masculino, o mundo machista. Ela está lutando.
O oposto deve ser incorporado. Negando isso, convidamos os problemas e, em cada caminho, em todos os níveis, em todas as dimensões, é a mesma coisa. Se você negar o inútil, então não haverá nada de útil no mundo.

Por exemplo, se uma criança está brincando você diz: “Pare! O que você está fazendo? Isso é inútil. Faça algo útil. Aprenda, leia, pelo menos faça a sua lição de casa, algo útil. Não fique por aí, como um vagabundo”. Se você continuar insistindo com essa criança, aos poucos você vai matar o inútil.
Então a criança vai se tornar apenas útil e, quando uma pessoa é apenas útil, ela está morta. Você pode usá-la, ela é uma coisa mecânica, um meio e não um fim em si mesmo.

Perceba... Você é realmente você mesmo quando está fazendo algo inútil – pintura, não para vender, apenas por prazer; jardinagem, apenas por prazer; deitado na praia, sem fazer nada, apenas para desfrutar, diversão inútil; sentado em silêncio ao lado de um amigo.
E muito poderia ser feito nesses momentos, porque esses momentos não vão voltar. E as pessoas loucas dizem que tempo é dinheiro – porque só conhecem uma maneira de usar o tempo – como convertê-lo em mais e mais dinheiro. No final, você morre com um belo saldo bancário, mas por dentro totalmente pobre, porque a riqueza interior só surge quando você sabe apreciar o inútil.

E o que é meditação? As pessoas vêm até mim e dizem: “Qual é a utilidade dela? O que vamos ganhar meditando? Qual a vantagem disso?"

Meditação... E você pergunta sobre a vantagem? Você não pode entendê-la porque a meditação é simplesmente inútil. No momento que digo inútil, você se sente desconfortável, porque toda a sua mente se tornou tão utilitária, tão orientada para a mercadoria, que você precisa de um resultado. Você não pode admitir que algo possa ser um prazer por si só.

Inútil significa que você aprecia, mas não ganha nada com isso; você se deixa absorver profundamente, isso lhe dá felicidade.

No mundo existem dois tipos de pessoas: as utilitaristas – elas se tornam cientistas, engenheiros, médicos. Então, há o outro caminho, complementar – os poetas, os vagabundos, os renunciados – inúteis, não fazem nada de útil.

Mas eles dão o equilíbrio, dão a graça ao mundo. Pense num mundo cheio de cientistas e sem nenhum poeta – seria absolutamente feio. Pense num mundo com todos nas lojas, nos escritórios, e nem um único vagabundo. Seria o inferno. O vagabundo dá beleza.
Essas pessoas dão beleza ao mundo, são um perfume. Um Buda é um vagabundo, um Mahavira é um vagabundo.


Sempre que o mundo fica utilitarista demais, você cria muitas coisas, você possui muitas coisas, você se torna obcecado pelas coisas -, mas o mundo interior está perdido, porque o interior pode florescer somente quando não há nenhuma tensão externa, quando você não está indo a lugar algum, apenas descansando. Então o interior desabrocha.

Então, nesse momento, olhe pra dentro e ouça...
Ouvir é diferente de ficar apenas em silêncio; ouvir é uma passividade alerta, que está a espera de algo, sem dizer nada, mas esperando com todo o ser – tem uma intensidade...
Mas ouvir é absolutamente inútil; e ouvir o desconhecido? Você não sabe onde ele está. O silêncio é inútil, falar parece útil - algo pode ser feito por meio de conversas, se você estiver fazendo muitas coisas no mundo.

E o mestre Chuang Tzu diz: A religião começa quando você compreende a futilidade de fazer, então você passa para o extremo oposto do não fazer, da inatividade, do tornar-se passivo, de tornar-se inútil.

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Texto sensacional. 
As vezes nós mesmos nos cobramos algo , uma decisão por exemplo, quando ainda não temos a resposta interna. E fica aquela pressão ( de fora e de dentro...). Na verdade, se temos uma " ferida", (não importa quando foi instalada , nem por quem) as decisões não aparecem... e somos "empurrados" pela pressa , pelo desespero, a decidir. Treinar ouvir-se é necessário.

O que você está fazendo para isso?
Se nada é buscado, os resultados continuarão sendo os mesmos: cobranças, insucessos, desespero, derrotas...
Então...mãos à obra!
Bom dia.
Tais

domingo, 16 de agosto de 2020

Como a relação com a mãe afeta a sua vida?

Mãe é o símbolo do acolhimento. Do conforto. Do sustento. Do cuidado. Carinho. Proteção. Traumas e raiva inconscientes em relação à mãe atravancam a nossa confiança e capacidade de direcionamento da força rumo ao trabalho, crescimento e prosperidade.

Quando falo de traumas em relação à mãe, estou falando de sentimentos e dores não vistos.

E isso é dentro de nós, não tem nada a ver com a nossa relação com a mãe fora de nós. Por isso, esqueça a necessidade de se harmonizar com a sua mãe. O negócio é pra dentro… 
E se você sente que tem dificuldade de “encontrar-se na profissão” ou vive falta de prosperidade, deverá olhar para a sua relação com a mãe internalizada.

Mas… como “tomar esta mãe”, de acordo com estes ensinamentos de Bert Hellinger? 

Tomar a mãe inclui alguns passos:
  • saber definitivamente que você está trabalhando a imagem interna da mãe (não a sua relação externa com ela)
  • buscar ampliar esta imagem internalizada da mãe. Como? Olhando para a mãe de forma distanciada, buscando todos os defeitos e todas as virtudes que existem, mesmo que você tenha que perguntar pra outras pessoas: quem foi (ou é) mamãe, para você?
  • olhar para os sentimentos e dores que a relação com a mãe provocou dentro de si, principalmente para a sua criança (que pode ir desde a gestação até a adolescência)
  • permitir esta existência de todos os sentimentos: desde amor, até ódio. Raiva, mágoa, sensação de traição, dó, culpa, medo, alegria, prazer, confiança. Tudo, tudo, tudo.deixar que tudo isso se acomode no seu coração, dure o tempo que durar 

Você verá que, conforme vai fazendo este processo, a sensação de força e confiança vai retornando. 

Terão momentos difíceis, dolorosos, raivosos. Isso faz parte. 

Porém, o amor incondicional que existe entre você e sua mãe irá também se revelando, naturalmente. 

Aos poucos, você irá percebendo que é exatamente a continuação dela. E ao amá-la, estará amando a si mesmo.
Alex Possato
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domingo, 9 de agosto de 2020

Corona vírus na visão budista

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Discípulo:
Mestre, é tão difícil para eu entender o por que de um vírus tão agressivo. Qual é o propósito?

Mestre:
Aprendizado. Essa pandemia foi gerada pelo homem através das constantes violações das leis universais.

Discípulo:
Mas algo tão ruim vai causar muita destruição.

Mestre:
O coronavírus não é ruim. Também não é bom. É necessário, é diferente. Não há nada errado com o universo. Se o coronavírus está presente, é porque a divindade permitiu, de outra forma não poderia existir.

A ideia de bem e mal é gerada em sua mente, que julga a partir da sua ignorância um evento que por si só é neutro.

Discípulo:
Mas tantas pessoas estão sendo infectadas no mundo, tantas outras ficarão sem comer. Muitos idosos, homens e mulheres. Isso é muito injusto.

Mestre:
O injusto não existe no amor universal. Isso existe apenas em sua mente que não entende o propósito profundo.

O que existe é o justo, o preciso, o exato, o correspondente. Existe um processo evolutivo necessário que consiste em uma coleta constante de informações. Um aprendizado enfrentando as dificuldades que a vida nos apresenta, para que, em meio ao caos e ao sofrimento gerado, descubramos o princípio do amor que se encontra na própria vida. E esse princípio de amor é o que nos libertará das limitações humanas e nos fará corresponder a experiências com muito mais satisfação e harmonia.

Você precisa entender que ninguém experimenta uma experiência que não corresponde a ela. E se corresponder a ela, ele viverá, seja na resistência, na cura ou na morte física. O coronavírus não é ruim. É muito bom, pois muitas pessoas estão aprendendo com isso. O nível de consciência do planeta está subindo, estamos sentindo a necessidade de desenvolver grandes ferramentas de amor, como a aceitação, apreciação e adaptação. Paciência, tolerância e respeito por nós e por todos.

Pode ser um teste difícil, mas não é ruim. Você está crescendo graças a ele. Se você parar de ver o coronavírus através dos medos e começar a vê-lo pelo seu entendimento poderá reconhecer o valor que existe nele. Então você passará neste teste que a vida está lhe apresentando. A decisão está em você.

Você recebeu o poder de tomar decisões através do seu livre-arbítrio, e estas serão respeitadas por todo o universo. Você pode escolher o medo ou escolher o amor. A decisão é sua. Está em você!

Neste momento, qual a decisão que você está tomando? Você escolheu medo ou o amor?

A decisão é sua, mas terá um resultado, que também é seu e você terá que assumir.

Se você decidiu pelo medo, irá gerar destruição na sua paz, na sua energia vital, nos seus relacionamentos e na sua saúde.

Se você decidiu amar, passará no teste que a vida lhe apresenta e não precisará mais sofrer novamente.

Tenha como opção o amor. O amor é sempre o melhor caminho.

Discípulo:
E como faço para trilhar o caminho do amor e não do medo?

Mestre:
◾Torne-se um ser imperturbável. Invulnerável. Trabalhe em você para que sua paz e felicidade não dependa do externo.

◾Pare de ver problemas e comece a ver oportunidades nas quais você pode aproveitar para fazer o crescimento interno.

◾Desenvolva a aceitação. "Tudo o que acontece é perfeito, e se existe e acontece é porque tem um propósito". "Pai, faça sua vontade, e não minha." "Mostre-me como posso servi-lo melhor."

◾Aprenda a fluir e a se adaptar. Aja com sabedoria em vez de reagir com a incompreensão.

◾Observe seu pensamento para que ele vibre apenas na alta frequência do amor. Isso lhe trará clareza de espírito.

◾Não compartilhe seus medos com os outros. Compartilhe apenas seu entusiasmo, otimismo e sua alegria.

◾Vigie seu verbo para que as suas palavras criem harmonia e faça com que os outros se sintam confiantes e seguros.

◾Faça amizade com o coronavírus. Não o veja como algo ruim, mas como algo necessário. E fale com ele: "O que você está me ensinando?" "Você é valioso para mim e estou disposto a aprender o que você pode me ensinar."
"Assim que eu aprender, você pode sair porque não vou mais precisar de você."

Aproveite a oportunidade que a vida lhe apresenta neste momento para fazer um trabalho interior. 

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domingo, 2 de agosto de 2020

A retirada – Bert Hellinger


A ARTE DE IR EMBORA.
Retirar-se significa retroceder diante do que mostra mais forte que nós. Com isso nos subtraímos a seu influxo e poder, enfraquecendo-o e impondo-lhe limites. Essa retirada é, portanto, estratégica e temporária. Ela serve pra conservar e concentrar as próprias forças. Faz parte de um movimento mais amplo, que não exclui um avanço posterior.


A retirada também pode ser necessária quando avançamos e invadimos indevidamente. Então retrocedemos diante de algo com que orgulhosamente queríamos competir e que, com razão, se manifesta como maior e mais forte que nós. Essa retirada nos purifica. Através dela, recuamos para nos nossos próprios limites e ficamos modestamente dentro deles.

Retiramo-nos, também, quando algo se completa, por exemplo, uma tarefa, um trabalho. Então o deixamos entregue ao seu próprio movimento e à sua própria força. Não o seguramos e não deixamos que nos segure por mais tempo. Essa maneira de retroceder recolhe para dentro o que estava sendo dirigido para fora: para outras coisas, para outras pessoas. No interior, isso se acalma, pode se renovar, ordenar e concentrar para um novo movimento ou uma nova tarefa.

A retirada também é oportuna quando algo foi superado – um saber, uma experiência, uma conquista, por mais útil, impulsionador e importante que tenha sido; o apego se converte num obstáculo para o novo – para um novo saber, uma nova experiência, um desafio inesperado. Abandonar o que foi, soltar o que guardávamos nos libera para o definitivo e para o possível.

Também nos retiramos quando não somos mais necessários, quando outros tomam o nosso lugar, quando se aproxima e se impõe a despedida definitiva. Ela é a última retirada, o retorno ao centro, no qual torna a cair tudo o que se expandiu. Essa retirada, quando bem sucedida, é a recolhida entrada no definitivo.

“Retirar-se pode ter vários sentidos. Aqui me refiro a uma retirada no sentido de uma realização. O essencial foi realizado, a tarefa central efetuada, a alma já se sente próxima de sua meta. Mas ela não foge. Pelo contrário. Permanece lá, porém, à distância. Está dedicada, mas ainda sem intervir. Observa de modo benevolente e sereno o mundo em ação, também os conflitos e a luta por soluções e o investimento em objetivos sublimes, algumas vezes acha graça de algo e descansa em si mesma. Necessita somente de pouco e de poucos, pois já se desapegou.

Desse modo ela empobrece? Não. Pelo contrário. Aquilo que ela deixou para trás, não se perdeu. Está presente, de forma pura e sem desejos. Alcançou o seu objetivo, está acolhido, aberto. Aquilo que foi deixado para trás é experimentado como plenitude, como felicidade, algo concluído e mesmo assim atua como uma força silenciosa. Esta retirada é rica. Abre a alma para compreensões que, na vida cotidiana, acabaram ficando no pano de fundo. 

Essas compreensões transformam experiências passadas que, mesmo imergindo, permanecem, mas agora de uma forma diferente.

Aquele que se retira deste modo, enquanto permanece, representa um ganho para muitos. Sua presença é benéfica. Os outros podem orientar-se a partir dele, sem que se sintam obrigados, pois em sua presença sentem-se livres.

Dizemos igualmente que Deus se retirou. Mas talvez justamente por isso ele seja aquele que realiza tudo de um modo especial e totalmente diverso, muito para além de nossas imagens e desejos. Somente a sua retirada nos torna receptíveis e preparados para o inacessível e o inominável.”
Bert Hellinger
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