domingo, 26 de maio de 2019

Tudo o que já fomos, ainda somos!

Resultado de imagem para pintura reflexo rosto

A mudança é uma proposta interessante. Ao mesmo tempo em que pode nos encher de ansiedade e insegurança e até nos paralisar, quase sempre nos remete à expectativa de que tudo pode ser melhor do que tem sido. Mais ou menos como se estar satisfeito com o que já temos e com o que já somos, fosse sinônimo de covardia ou acomodação.

Faz sentido, em partes. Mudar pode mesmo ser assustador, já que nos impulsiona ao desconhecido. E pode também ser surpreendente e maravilhoso, já que nos possibilita ampliar os horizontes, abrir a mente e experimentar o novo.

No entanto, penso que a questão principal nem seja sobre mudar ou não mudar. Digamos que a mudança é inevitável. Portanto, discuti-la pode servir apenas para compreendê-la melhor. Penso que a questão, na verdade, tem a ver com quem nos tornamos cada vez que mudamos.

Se considerarmos que mudamos o tempo todo - de modo significativo ou imperceptível, propositadamente ou sem querer, consciente ou inconscientemente - não dá para dizer que somos completamente 'outro' a cada mudança. Somos os mesmos e, ainda assim, refeitos.

O que quero dizer, enfim, é que não substituímos o que fomos pelo que nos tornamos a cada mudança. Tudo o que já fomos, ainda somos! Somos as marcas, as cicatrizes e as lembranças de ontem, as ações, as escolhas e o modo como enxergamos o mundo de hoje, e os sonhos, a esperança e as possibilidades de amanhã. E tudo isso é fundamental!

Só que, infelizmente, algumas pessoas tendem a desperdiçar seus dias julgando sua história. Num esforço desgastante e inútil, tentam separar o que foi bom e o que foi ruim. O que foi acerto e o que foi erro. O que foi sucesso e o que foi fracasso. E nesta dinâmica, insistem na fantasia de que é possível ser completamente diferente do que se é. Ou do que se foi.

Penso que o intuito de viver é bem outro. É justamente somar. É exatamente considerar todas as camadas, todos os processos, todas as experiências. É genuinamente acolher a própria biografia com todos os seus ônus e todos os seus bônus. Todos os seus risos e todas as suas lágrimas. Todos os seus gozos e todas as suas dores.

E assim, podendo aprender com o passado, fincar os dois pés e o coração no presente e desenhar o futuro que deseja viver, sugiro que você observe - como se estivesse assistindo ao longa vencedor do Oscar de Melhor Filme - o quão emocionante e essencial foi cada uma de suas tristezas, cada um de seus amores e cada instante em que você decidiu, com todas as suas forças, ser quem você é!

É só isso que pode fazer a vida valer a pena! Ser quem você é! Não apenas uma parte. Não apenas o que é bonito de mostrar. Não só o que foi gostoso de ser. Ser quem você é por inteiro, podendo se levantar agora, de onde você estiver, e traçar um novo enredo para sua história. E que este novo se encaixe no velho e te refaça ainda mais intenso, mais profundo e com mais um broto de vida pra viver!
Rosana Braga
**********
"Naturalmente que somos marcados pelo que vivenciamos. Mas a ideia de que com isso não somos livres não pode ser mantida.
Existem pessoas com destinos bem difíceis, mas que mesmo assim os vencem porque tiram força do acontecimento e com essa ajuda podem fazer algo que outros, que não tiveram essas experiências, não poderiam fazer.

Por outro lado, outros permanecem, quando vivenciaram algo assim, censurando aqueles que causaram isso ou permanecem numa postura de reivindicação perante essas pessoas. Com isso, consideram-se vítimas. 
Mas uma vítima, nesse sentido, é incapaz de agir. Essa atitude torna-se, para essa pessoa, o seu destino, mas não porque esse destino vem de fora e sim, porque essa pessoa reage a essa situação com uma atitude de vítima."

Como você lida com suas dificuldades?
E, recebendo essa informação...como lidará?
Bons dias de reflexão. Um abraço!
Tais

domingo, 19 de maio de 2019

A autonomia do adulto - Bert Hellinger

Imagem relacionada
Bert Hellinger entrevistado por Gabriele ten Hövel

“A autonomia e liberdade só são possíveis quando, sob outro aspecto, não somos autônomos, mas participantes – quando estamos ao serviço de algo e nisso consentimos.”

Gabriele ten Hövel – O que o senhor diz é, e continuará a ser para muitos, um atrevimento. Afirma que a nossa percepção está condicionada pelos campos onde nos movemos, que estamos “a serviço”, que os movimentos são controlados por poderes superiores e que nem sequer a nossa consciência moral é autônoma, mas que depende da família de origem e do grupo em que nos movemos. 
Onde ficam então a autonomia e a liberdade? 
Até que ponto estamos condicionados? 
Que margem de manobra temos? 
Estes são os pontos sempre em questão quando se discute a filosofia de Bert Hellinger. As pessoas contrapõem que a sua imagem do ser humano é fatalista e até totalitária. Elas consideram que hoje as pessoas têm todas as possibilidades para planejar a própria vida de forma cooperativa e consciente e que os terapeutas existem para ajudar os clientes e eliminar o que entrava esse propósito. Que autonomia tem o sujeito no mundo moderno? Que contribuição presta a sua filosofia e o trabalho com as constelações familiares para essa autonomia?

Bert Hellinger – Do ponto de vista filosófico a ideia de autonomia é ridícula. Continuamente dependemos uns dos outros. Estamos marcados pelos nossos pais e pelo campo onde nos movemos. Os antepassados estão presentes, os mortos estão presentes, as nossas acções estão presentes, tudo está presente. E movemo-nos imersos em tudo isto. Se penso que decidi livremente as coisas da minha vida, torno-me pequeno. Pequeno e insignificante. Estou envolvido em todos esses grandes movimentos, na fila dos ancestrais, na família, e esse envolvimento é independente da minha livre vontade. Muito simplesmente encontro-me dentro disso e também eu movo algumas coisas. Em que medida posso atribuir isso a mim ou não, parece-me irrelevante.

Gabriele ten Hövel – O conceito de sujeito tem duas faces: sujeição e autodeterminação. O senhor enfatiza o ponto de vista de estar dentro, imerso, ou seja, a ideia de sujeição e ridiculariza a autonomia. No entanto, todo o movimento terapêutico dos anos 70 apontava para essa liberdade individual. Certa vez Eric Berne formulou isso de forma exagerada: “se eu te amo, o que isso tem a ver contigo?”. Talvez que, como reação a uma sociedade totalitária, aqui na Alemanha e nos últimos 40 anos, tenha havido uma acentuação excessiva da liberdade individual?

Bert Hellinger – Não tenho opinião sobre a autonomia e liberdade, apenas relato o que observo. Nestes 15 anos de trabalho com constelações familiares não tenho visto outra coisa além daquilo que tenho relatado. Outras pessoas também podem observar e comprovar quanta liberdade existe no sistema familiar. Um bom exemplo é a adoção: o que há de livre e autônomo num caso desses? Nada foi livre, nada foi autônomo. Cada constelação demonstra que estamos integrados num sistema.

Gabriele ten Hövel – A ideia da autonomia foi revolucionária. Sem ela o indivíduo moderno é impensável. É também a renúncia à ideia do nosso provérbio: “eu danço ao som da canção de quem me dá o pão”. A liberdade de pensamento, a liberdade religiosa, tudo tem a ver com isso.

Bert Hellinger – A ideia da autonomia visa justificar uma separação, o que significa que está ao serviço de um determinado propósito. É, por assim dizer, um lema político, faz parte de uma disputa cujo objetivo é o de se livrar de uma tutela que já está ultrapassada. Nesse sentido, a ideia da autonomia serve ao propósito de afrouxar apegos. Sob esse ponto de vista, a autonomia tem naturalmente um firme enraizamento na vida, contudo, quando se generaliza, desvirtua-se. Nenhuma criança é autônoma frente aos seus pais; isso não existe. Nenhuma pessoa é autônoma frente aos seus antepassados – há culturas que sabem isso – ou frente à vida ou à morte. Isso não existe. Autonomia e a liberdade têm valor dentro de um determinado âmbito. Se dentro desse âmbito cumprirem uma boa finalidade, então podemos e devemos apoiá-las. Nesse sentido, também eu me conduzo de forma autônoma, mesmo quando isso não agrada aos outros. Isto é legítimo, apenas isso. Independentes, porém, não o somos. A autonomia e liberdade só são possíveis quando, sob outro aspecto, não somos autônomos, mas participantes – quando estamos a serviço de algo e nisso consentimos.

Gabriele ten Hövel – É claro que nos sistemas não nos movemos apenas pela nossa vontade. Talvez tenha visto a interessante curta-metragem “Balance”. Cinco ou seis figuras estão de pé sobre uma plataforma, cujo centro se apoia numa base.
No centro da plataforma aparece uma caixa.
Os homens distribuem-se pela plataforma, dois mais ao centro e dois mais perto do bordo, pois só assim a plataforma se mantém equilibrada. Então, um dos homens começa a mover-se em direção à caixa e de imediato os outros têm também que se mover, para que não escorreguem para fora da plataforma, que começa a inclinar-se. Então um segundo homem move-se e de novo todos têm de se mover, para que a plataforma mantenha o equilíbrio.

Trata-se de um filme didático sobre a forma como se movem os sistemas sociais.

O senhor descreveu as três dinâmicas básicas dos sistemas: ordem, vínculos e compensação.
Para dizê-lo de uma forma resumida: onde quer que os seres humanos vivam ou trabalhem juntos, eles atuam e colaboram para que o conjunto resulte em êxito ou num enredo. Muitas vezes isto é entendido como se estas dinâmicas fossem uma invenção sua, como se o senhor quisesse exercer uma pressão sobre o indivíduo para inclui-lo de forma forçada em alguma coisa.

Neste filme, “Balance”, estas dinâmicas do sistema tornam-se visíveis. Todos dependem de todos; a questão não está no indivíduo, mas em todos.

Neste sentido sistêmico, entendo que enfatize as limitações da nossa autonomia. Outra questão é saber se, por causa disso, todos somos tomados ao serviço de poderes superiores. O senhor afirma isso aos seus quase 80 anos. Aos meus filhos de 20 anos de idade interessa-lhes a sua liberdade e autonomia.

Bert Hellinger – Claro. Quando vemos os jovens a encarar a vida, com todas as suas expectativas, é maravilhoso contemplá-lo. Naturalmente que as coisas serão diferentes, mas o facto de terem essa crença, é simplesmente belo contemplá-los nessa fé. Faz parte do todo e por isso não tenho nenhuma ideia sobre o correcto ou errado. O caminho em linha recta não é criativo.

Gabriele ten Hövel – No entanto, existe uma diferença entre dizer “todos estamos vinculados” e dizer “eu sou autônomo e independente”. E isto é essencial, pelo menos em determinadas etapas do desenvolvimento.

Bert Hellinger – É a cenoura à frente do burro, que se põe para que ele siga em frente.

Gabriele ten Hövel – Mas quando eles se tornam adultos e continuam a dizer “sou autônomo e livre”, qual é a diferença?

Bert Hellinger – Quando dizem “sou autônomo e livre”, que idade têm eles no seu espírito? Que experiência de vida possuem? Isto é pubertário, simplesmente pubertário. Convém-lhes a eles, mas não tem validade universal.

Observei pessoas que nos seus atos e pensamentos estão envolvidas num campo e o campo determina aquilo que percebemos e aquilo que fazemos. Dentro dele temos, naturalmente, alguma margem de liberdade. Mas pensar que alguém pode decidir livremente sair desse campo é uma ilusão pela qual muitos estão a sofrer.

Gabriele ten Hövel – Em que sentido?

Bert Hellinger – Quando alguém diz “eu quero ser livre”, o que é que ele está a fazer? Ele está a afetar alguém.

Apelar à liberdade significa o direito de separar-me de alguém ou de me recusar a uma obrigação. Por exemplo, como quando alguém abandona os seus filhos. Na realidade essa liberdade significa que eu me subtraio a um vínculo. Nesse momento, essa pessoa esta totalmente debruçada sobre si mesma. E o que é que, nessa liberdade, lhe acontece? Nada, absolutamente nada. Com a liberdade ela não pode fazer nada. Esta forma de liberdade é completamente vazia. Ao fim de algum tempo o que é que ela faz? Entra numa relação, pois não suporta por muito tempo essa forma de liberdade. A liberdade implica estar com os outros. Ninguém consegue estar sem os outros. Quer dizer que, então, ela estabelece uma relação e a liberdade desaparece – esse tipo de liberdade. Especialmente quando se tem filhos, já não se é, em absoluto, livre, contudo está-se preenchido. No âmbito deste vínculo é-se livre, podem fazer-se diversas coisas. As pessoas podem cozinhar isto ou aquilo, abraçar esta ou aquela profissão, ter amigos, pois dentro desses limites há liberdade. E é uma liberdade que toca a todos. Quando alguém diz “não, eu quero ser livre para mim”, ele está a subtrair-se ao vínculo. No entanto, no amor estou simultaneamente vinculado e livre. Esta é uma liberdade relacionada, a outra é uma liberdade irrelacionada.

Gabriele ten Hövel – Portanto, a autonomia dá relevo ao individual, mesmo fora de uma relação. A sua liberdade realça o lado sistêmico, o vínculo; mas também o vínculo necessita das suas delimitações, ou não?

Bert Hellinger – Sim, naturalmente, mas aí encontramo-nos num outro plano. Isso diz respeito à configuração da relação que não questiona o vínculo.

Excerto adaptado por Eva Jacinto a partir das traduções em castelhano e português brasileiro:
Hellinger, B., Ten Hõvel, G. (2006). Un largo camino: diálogos sobre el destino, la reconciliación y la felicidad. 
Hellinger, B., Ten Hõvel, G. (2006). Um lugar para os excluídos: conversas sobre os caminhos de uma vida. 

**********

domingo, 12 de maio de 2019

Mãe: caminho de cura

Resultado de imagem para imagem barriga gravida
Hoje, dia 12 de maio comemoramos o dia da MÃE.

Ela, uma mulher bem comum, ainda que extraordinária, somou-se a um homem, este também comum e igualmente extraordinário para criar algo intimamente ligado com toda a força desse universo. Criou uma vida, algo somente alcançado através do amor.

Talvez nesse pequeno pensamento, já é possível perceber a força e a grandeza dessas mulheres que se tornaram mães. A capacidade sublime de somar recursos e gerar vida.

Nessa vida contém toda a força e capacidade de duas pessoas que se aventuram nesse caminho arriscado de gerar filhos. 

Resultado de imagem para imagem barriga gravida

“Eu tomo a vida de você”

Arriscado também porque ter filhos é aceitar a vulnerabilidade do cargo. É saber que a própria felicidade não está mais somente em seu poder, mas agora atrelado ao destino de uma nova pessoa.

É o maior caminho de amadurecimento reservado à nossa humanidade. A maior responsabilidade que um casal pode ter. A cada filho que nasce no mundo, todos ganhamos a chance de um novo recomeço. Uma nova oportunidade de seguirmos adiante.

Filhos só existem por causa de mães e pais. Mães e pais só existem por causa de seus filhos. Esse é a grande força que comemoramos neste fim de semana.

Este domingo é uma data em que todos fazemos parte. Todos tivemos uma mãe, independente de como tenha sido: a vida chegou até nós através dela.

Ela nos convida a incluir, em torno de uma mesa farta, todos os que pertencem à nossa família. E na inclusão de todos, reside a cura. 

“Tudo, a totalidade”

Como filhos, esse domingo é uma oportunidade para reconhecermos todo o carinho, cuidado, atenção, oportunidade, amor, acolhimento que recebemos de nossas mães.

Mães que aguardam pacientemente nossas voltas pelos lados escuros do amadurecimento. Mães que permanecem mães mesmo após não poderem mais estar conosco.

Mães que com um pequeno gesto, geram memórias que nos acolhem durante toda uma vida. Mães que nos deram um pai e uma família.

Mães que pedem para pôr um “casaquinho” pois o frio está vindo. E esse casaco, quando o frio realmente chega, se torna o melhor abrigo que poderíamos receber. Não é apenas o tecido certo. É o cuidado com a gente que esquenta.

Mães com destinos tão difíceis que deram tudo o que podiam e seguem incompreendidas por nós, que ainda nos arrogamos o direito da crítica e do julgamento, como se elas pudessem ter sido diferente do que foram.

Mães com suas dores e lágrimas.

Mães que talvez um dia, também foram crianças tão pequenas e indefesas, abandonadas.

Mães que são… mães.

Maravilhosas pelo sim que dão a vida para nos trazer a este mundo.

Agradecimento ao despertar da vida

Mães nos apontam para o sucesso. Na verdade, são nossa primeira possibilidade de sucesso. Nosso nascimento vem carregado de trabalho que nós, como família, fazemos juntos.

Um bebê experimenta através da mãe o sucesso do nascimento e da alimentação ativa, ainda que por vezes por um curto período de tempo.

O que foi possível é o suficiente. Para cada leitor deste texto há uma mãe que ficou disponível, da melhor forma possível, ao fluxo da vida. Que aceitou a tarefa com tudo que ela carrega, com todas as dores e felicidades.

As vezes, nós como crianças pequenas, não aceitamos bem o que vem de nossa mãe, e sofremos na ambiguidade do nosso sentimento. Bert Hellinger fala em seu livro “O amor do espírito” de um exercício que podemos fazer para experimentar os efeitos de concordar com os destinos de nossos pais.

Hoje, em especial, sugerimos que este exercício seja feito direcionado à mãe. Imaginamos nossa mãe à nossa frente, nos ajoelhamos e dizemos o seguinte para ela:

“Querida mamãe,
Eu tomo a vida de você,
Tudo, a totalidade,
Com tudo o que ela envolve,
E pelo preço total que custou a você
E que custa a mim.
Vou fazer algo dela, para sua alegria.
Que não tenha sido em vão!
Eu a mantenho e honro
e a transmitirei, se me for permitido,
como você fez.
Eu tomo você como minha mãe
e você pode ter-me como seu filho(a).
Você é a mãe certa para mim
e eu o filho certo pra você.
Você é grande, eu sou o pequeno.
Você dá, e eu tomo – querida mamãe.
E me alegro porque você tomou o meu pai.
Vocês dois são os certos para mim.
Só vocês!”

Estar em concordância com a imagem deste exercício é tomar ativamente o que é passado a nós pelas nossas mães e pais. E este tomar é o acesso a uma vida mais significativa, alinhado com a nossa força familiar e tudo o que nos move.

Reverenciamos todas as mães, com tudo que as moveu e que nos trouxe até aqui.

Obrigado por todos os olhares durante nossas vidas.

Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Texto extraído do site Ipe Roxo - https://iperoxo.com
**********

domingo, 5 de maio de 2019

As ordens do amor: cliente e constelador

Imagem relacionada

“As ordens do amor são princípios desenvolvidos por Bert Hellinger, a partir da observação. Ainda que sejam estranhas à Psicologia, por causa da tradição psicológica, poderão ser absorvidas com o passar do tempo porque em toda evolução ocorrem quebras de tradições.

1. Todos de um sistema familiar tem o direito de pertencer. Isso não é uma decisão consciente, é um fato: a pessoa tem o mesmo sangue, ou tiveram relações sexuais ou teve filhos juntos. Se alguém do sistema familiar é excluído, o sistema familiar tenta corrigir isso nas gerações seguintes, através da identificação ou do “emaranhamento” de alguém do sistema.

2. Existe uma hierarquia natural em um sistema familiar: o primogênito é sempre o primeiro gerado (nascido ou não), o segundo filho é o segundo, e assim por diante. Os cônjuges, se houver mais de um, vêm na ordem que apareceram. Isso não tem a ver com a forma de eles olharem a própria história: se casou com X primeiro e depois com Y, X vem primeiro e Y vem depois. Ponto final. Os pais nascem antes dos filhos e os pais deles nasceram antes deles. É a ordem.

Em vidas problemáticas, os comportamentos que estão na superfície são as águas brancas turbulentas sobre um rio que flui forte em baixo, caoticamente, uma corrente sistêmica mais profunda e constante, que flui sempre na mesma direção. Essa corrente profunda é feita daquilo que recebemos da mãe e do pai. Vibramos a frequência da mãe e do pai desde que nascemos. Não há escolha. Não há escape. A nossa vida se originou da deles e dançamos a música que eles dançaram.

Aceitar que a nossa vida veio de seres imperfeitos, nos libera de culpá-los e nos habilita a receber o amor, a vitalidade e o nosso direito de nascença. O mais importante é que nos conectemos a eles de uma forma que permita que o amor flua muito além deles e que ele também nos alcance.

Nem todo sistema familiar está fora de ordem mas muitas pessoas com dificuldade nos relacionamentos pessoais ou nas relações de trabalho, carregam alguma confusão sistêmica sobre a simples ordem de “quem veio primeiro." Sem reconhecer quem eram, as pessoas seguiram uma consciência grupal e se deram mal.

A nossa "consciência" individual (nosso sentimento pessoal de culpa ou inocência) é baseada na necessidade de pertencer ao grupo. É algo atávico. Pelo bem da sobrevivência, a prioridade é proteger os laços com nosso grupo, o nosso lugar na comunidade.

Se o grupo disser que devemos excluir um membro da família, a fim de pertencermos, o excluiremos; e até nos sentiremos bem e sem culpa, fingindo que a pessoa não faz mais parte da família. Sentimo-nos bem porque estamos de acordo com o grupo, sem medo de sermos excluídos ou de nos afastarmos dele. Trocamos o que é verdadeiro pelo pertencimento.

Cuidado com a sua rejeição do filho homossexual, da filha dependente química, do primo que cumpre sentença na prisão, da enteada que você expulsou porque não é a sua filha, do irmão que abraçou uma religião que você não gosta, da ex-esposa que você tirou o direito de mãe porque a denegriu para o juiz lhe dar guarda exclusiva, do filho que você rejeitou para se casar de novo, do pai que você largou porque ele se perdeu na vida. Tais comportamentos voltam, nesta ou nas próximas gerações e com os seus descendentes de sangue. 

A dinâmica sistêmica transgeracional é uma ordem superior de amor que insiste que todos tenhamos um lugar. Há ocasiões em que nos sentimos com um conflito interno porque o sistema familiar exige que neguemos a inclusão da extensão da alma da família real. A pessoa que foi internada, a ovelha negra, os filhos da amante, a que se casou fora da raça ou cultura. Há uma ordem maior que exige que tais membros da família voltem para casa. Todo mundo tem o direito de pertencer.

Essa tal consciência pessoal tem motivado a maioria das atrocidades, cometidas em nome de uma "boa consciência": genocídios, perseguição, de grupos ou indivíduos. Só porque seguiam suas crenças. Cuidado com o governo que você apoia. Será que ele inclui todos ou tenta cortar pessoas da nação, lhes privando de fazerem parte de um plano governamental benéfico? Os dias são ruins mas as pessoas podem torna-los piores. Quantas gerações serão necessárias para se purgar todo o mal que foi feito?

Quando vemos as maneiras pelas quais os indivíduos, gerações depois, se identificam com aqueles vitimados pelo sistema familiar, notamos quantos paralelos surpreendentes podem ser criados na vida das pessoas! Hoje você pode estar sofrendo pelas ações dos seus antepassados. O seu país também.

Há também aquelas poucas aves raras que escutaram um chamado mais elevado de "consciência" e conseguiram algo maior, mais universal e abraçaram uma outra agenda mesmo sob risco de serem excluídas e, às vezes, perderem até a própria vida.

Hellinger afirmou que há menos pressão e mais fluxo, quando as pessoas são respeitadas e reconhecidas dentro da ordem, conforme venho expondo. Existem muitos facilitadores focados em aprender a facilitar a constelação sistêmica familiar mas eles precisam, antes de qualquer coisa, reconhecer a posição do cliente. A integridade do sistema do cliente deve ser apoiada no espaço da constelação, de forma que o cliente consiga obter força e se curar, levando isso para o seu contexto sistêmico de família.

“As crianças fazem de tudo para salvar a mãe e o pai. Elas querem substituir a mãe e o pai e dizem: "É melhor que eu adoeça no seu lugar, minha mãezinha". Ou "É melhor que eu morra no seu lugar, mãezinha". Mas as tentativas de ajudar a salvar os pais sempre fracassam. Mesmo assim, elas não desistem: crescem, querem ajudar outras pessoas, do mesmo jeito que queriam ajudar os seus pais quando eram crianças. Vivem procurando pessoas necessitadas de ajuda e desenvolvem um relacionamento esquisito com a pessoa que querem ajudar. 

Hellinger afirmou que o constelador não pode ser uma criança que tenta mudar o destino de uma pessoa. Quem se comporta como uma criança e quem deve se comportar como mãe ou pai? O cliente ou o facilitador? Se for o facilitador, a relação terapêutica só pode falhar. Quando queremos alcançar a força para ajudar, temos, primeiro, que desistir de ajudar os nossos pais, olhar para eles e lhes dizer: "Você são grandes e eu sou pequeno. Eu os honro e continuo sendo o filho de vocês”. Assim, a criança consegue se separar dos pais e quando crescer, vai ajudar os outros e ela não precisa mais se comportar como uma criança. O constelador diz ao cliente: "Você é grande e eu sou pequeno", olhando não só para o cliente, mas para os pais dele, respeitando-os."

Os pais vêm primeiro e o filho vem em segundo lugar, porque os pais chegaram primeiro e os filhos depois. Se um cliente nos pede ajuda, entramos nesse sistema. Quem vem primeiro? Os pais e depois o cliente, claro!. Por último vem o constelador. Tem constelador que se acha ótimo e se comporta de maneira superior: ele primeiro, depois o cliente e então os pais do cliente. Está tudo errado. Vai dar errado.

O sistema familiar é um sistema fechado: nascido nele, nunca poderá ser diferente do que ele é. Isso foi traçado desde quando aquele determinado espermatozóide fertilizou aquele óvulo. Esse é o “ponto de origem” objetivo, quer você goste ou não.

Ter uma mãe não significa que alguém tenha sido nutrido ou "criado" por essa pessoa. Ter um pai não significa que alguém tenha sido nutrido ou "criado" por ele. Alguns tiveram destinos muito difíceis quando crianças, foram abusados ou foram negligenciados. Mas se a pessoa está viva, alguém contribuiu para isso. É, portanto, a vida aquilo que eu reconheço quando não há mais nada sobrando. No fim, a herança maior é a de se estar vivo.

Se alguém é incapaz de ser grato pela própria vida, viverá com raiva, inconscientemente punindo os pais terríveis com a sua própria vida terrível. Volta e meia, isso aparece nas constelações e a pessoa precisa agradecer pelo dom da vida, pois ela é a única realidade verdadeira que permite alguém ficar de pé, e fazer algo de bom, apesar de a vida ter sido ruim no passado.

Quantas famílias têm um segredo sobre um membro da família e que não é realmente um segredo? Isso gera uma tremenda tensão no sistema familiar: um filho, fruto de um caso de amor, que não é contado no rol de filhos. Tal exclusão é só o começo de um compromisso inconsciente multi geracional de lembrar e perpetuar a tradição de exclusão dessa família. É um fato que será repetido de novo e de novo, através das gerações, até que a essência da dinâmica e das crianças excluídas tenha sido colocada no lugar.

Muitos sofrem porque, em algum momento, lhes foi pedido que concordassem com a mentira de não terem pais: “eu não tenho pai” ou “não tenho mãe”. Mas todos os seres humanos, biologicamente, têm uma mãe e tem um pai. Para que o amor flua, os pais dão vida aos filhos e estes a obtém deles.

Para o amor fluir entre casais, deve haver um equilíbrio entre o dar e o receber. Para que esse amor flua, é preciso reconhecer o fluxo da vida.

Mas isto é uma conversa para outro dia.”
Autor: Miguel Mello
**********
Essas Ordens descritas acima regem TODOS  os relacionamentos: empresariais, familiares, governamentais... e todo tipo de relação terapêutica.
Como um profissional desta área pode direcionar seu cliente para uma solução que ele "acha" ser a melhor?
O cliente deve seguir as Ordens do Amor, para que sua vida flua, ou seja: Pertencimento, Ordem e Hierarquia ( já muito discorridas neste blog).
Observo quase sempre uma desordem nas relações, ao atender meus clientes. Mas,  partir do momento que o ele as compreende e passa a adota-las em sua vida ( mesmo que doa, que seja difícil etc...) tudo passa a fluir com mais rapidez. E aí tem uma nova armadilha - o cliente acredita que a constelação vai fazer mágica e resolver tudo....
Não!!!!!! A constelação mostra o essencial, aquilo que está encoberto...mas a "tarefa" da mudança e o olhar é do cliente- e apenas dele!
As constelações podem ser individuais e em grupo, e é uma forma de terapia breve para mostrar aquilo que está agindo no contexto e apontar as ordens que foram ou estão sendo quebradas. A  solução é mostrada ao cliente, através do campo, do seu sistema... mas a decisão para segui-las ou não, é do cliente.
Bom dia e boa semana.
Taís