domingo, 6 de novembro de 2011

Sobre a morte e morrer

Esta é a minha vovó materna ao completar 96 anos em agosto/11, juntamente com tia Ariadne que cuidou com tanto amor dela até o último instante. Obrigada tia...
Vovó partiu dia 1 de novembro/11 e ao ler esta crônica do Rubem Alves entendi exatamente o que tão bem expressou, pois foi assim que agimos com vovó - respeitamos o tempo real dela.
Queria também agradecer as tres cuidadoras da vovó Georgina; Maria Helena, Raissa e Lindaci. Elas cuidaram com Amor, eu sei!
Enfim a vovó descansou e deixou muitas boas lembranças além de ter oportunizado a minha vinda a este planeta, pois se não fosse ela e tantos outros antepassados eu não estaria aqui.
Minhas saudades, querida vovó!
Obrigada...
Tais

Sobre a morte e o morrer
Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

9 comentários:

  1. Nós curtimos seu post :Marcia A P Prestes, Keta Bruno Bruno, Paula Barone Briani , Danielle Sanson, Tania e Cleia

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  2. Uma boa reverência para sua querida avó, Tais. Bjs

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  3. Essa mensagem é muito verdadeira, uma forma de refletir como tratar com a finalização da existência nesse plano. Aqui tudo é transitório e nada, nada mesmo nos pertence. Nem mesmo a Vida. A VIDA é apenas uma passagem. Que sua vó continue a caminhada com mesma doçura com que você sempre falava dela.
    Um enorme abraço, Fátima

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  4. Uma reverência tb para nós próprios

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  5. Taísinha, meus sentimentos pela partida de sua avó, que deve ter vivido muito intensamente até seus últimos momentos. É o que sugerem a foto dela festejando o último aniversário, e seu carinho demonstrado tantas vezes desde que nos conhecemos.
    Estou lendo um livro bastante interessante e que aborda esse tema: " O Livro Tibetano do Viver e do Morrer." Suscita muitas reflexões acerca de nossas expectativas sobre a vida e a morte. Recomendo! Bj, Celso.

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  6. meus queridos...obrigada.
    Celso, ja li este livro e estou repassando neste momento.
    Estou bem...talvez pela certeza de que tudo que ela precisava e desejava foi feito, e com amor!
    Abração à todos

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  7. Forte abraço para ti

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  8. Turma do Biocentro9 de novembro de 2011 13:14

    O que nós achavamos mais lindo era ver você todos os dias passando na rua, de braços dados com a vovó, levando-a para almoçar. Durante uns 6 meses víamos a D Georgina passar cada dia com uma blusa diferente, com o brinquinho combinando, batom, colarzinho...Ficamos querendo uma neta como você. Lindo o carinho com que a tratava...fomos testemunha. Carinhos e fique bem!

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